segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Motim

É primavera, mas o inverno insiste em ficar. Algo me atravessa a garganta como miolo de pão. Há dois dias não como direito-e ainda assim tenho a sensação de que quero me livrar de um bolo no estômago. A cabeça corre a mil e  já está lá na frente, mas a tristeza gorda me invade o corpo como forma de fazer protesto. Estou cansada, sim. Exausta. Trabalho não me tem faltado. Mas o corpo padece do que lhe toma conta. Pode chamar de desapontamento, decepção, frustração. Pode chamar de sonho morto. Chame de impotência também-Não me cabe fazer nada além do que já fiz. Dê a esse mal o nome que lhe aprouver-virose ou estresse, se lhe for mais conveniente. Sua verdade é imutável porque imóvel você permanece. Aprendeu assim. Faz mais de meio século que é assim e não vai mudar agora, talvez nunca. Pela primeira vez quero ficar só. Quero quietude e acolhimento, silêncio e leitura. Quero a maciez da cama coladinha à paz de espírito. Quero as páginas do livro e o carinho do filho- por ora, não mais. Justo essa tristeza que acolhi e aceitei, diferentemente de todas as outras. Justo ela que acarinho e coloco pra dormir ao meu lado todas as noites, como se um filho fosse-um filho que preparo para seguir viagem sem mim. Pois a danada resolveu fazer motim. Deve ser porque não presto atenção nela. Até aprecio certa melancolia, mas essa está me saindo muito topetuda. Está certo, querida, vi que você está aí. Agora ganhe a estrada, que eu tenho mais o que fazer.
Texto: Cris Guerra
Imagem: Arquivo pessoal

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sobre os versos que não fiz

Quando  me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos
Escrevo num papel que está no meu pensamento
Sinto um cajado nas mãos e vejo um recorte de mim. No cimo dum outeiro
Olhando para o meu rebanho e vendo minhas idéias
Ou olhando para minhas idéias e vendo o meu rebanho
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que diz
E quer fingir que compreende
Texto: Alberto Caieiro

Frases soltas

"Amor vem de amor"
Guimarães Rosa

Morissey



A autobiografia de Morissey foi lançada este ano pela Penguin Classics e já virou febre na Inglaterra. Acho que demora ainda pra chegar por essas bandas, mas  há um trecho do livro que encontrei num cantinho da reportagem do Correio Brasiliense do domingo e que achei emocionante:
" Nenhum sonho poderia jamais se igualar ao meu primeiro show em São Paulo, no Brasil, quando o público levantou uma garota e a colocou em minha direção e, quando ela se aproximou, pude ver que ela segurava um bastão branco, e mais de perto, pude ver que ela era cega, e no momento em que a platéia a colocou delicadamente no palco, ela me entregou um bilhete, no qual pude ler: 'Não posso vê-lo, mas amo você'."

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Do meu silêncio só eu sei

Casa
Porta
Duas
Lentes
Papéis
Sua preferência
Sua vida em 7 dias
Uma semana
4 semanas
1 mês
1 ano
Uma vida
Risquei um X aqui e ali
Pisquei e retruquei poucas palavras
Subi as escadas e esse sentimento não foi embora
Em casa mais um contorno
Não quero mais ter que falar
Minha boca calou
Meu coração não se encontra
Minha memória ficou na caixa sobre a mesa
Os papéis guardei na gaveta
Em 60 segundos luzes se acenderão e mostrarão o caminho
Dê 5 passos e estará lá
Só resta saber o que vai ser de mim quando eu acordar
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A porta

Se a paixão se aproximar, não deixe ela entrar. Não deixe ela passar da porta, não, nem morta! Paixão é visita que não vai embora, que aceita mais um café, que passa da copa para a sala de estar sem cerimônia, que fica pra assistir TV e filar o jantar. Paixão é visita que pede pouso, pijama emprestado, travesseiro afofado. Paixão é do tipo que não entende indireta e nem se afeta pelas mandingas do tipo vassoura-de-cabeça-pra-baixo-atrás-da-porta. A paixão fica, se aconhega, se sente em casa. Paixão é amiga espaçosa, que abre a geladeira, come a sobremesa direto do pirex, tira o sapato e tem sua própria escova de dentes guardada no banheiro. Uma vez dentro, a paixão insiste em não sair. A paixão te faz refém na sua própria casa: você tem todos aqueles compromissos e ela não te deixa sair, todos aqueles livros pra ler e ela fica tirando a sua atenção, todas as contas do mês para pagar e ela diz que não. Paixão, além de tudo, é bicho vaidoso, quer atenção, quer os olhos vidrados nela, não te deixa nem ver a novela nem relaxar no sofá. Então, se a paixão passar, melhor não deixar ela entrar. Ela vai ocupar seu tempo, seu espaço e depois seu coração. Você vai se apegar à paixão. Vai se apaixonar por ela. E quando você menos esperar, ele traz mala, cuia e papagaio, e de visita vira inquilina – aí, ai de você se pedir pra ela sair.
Então, se a paixão passar, melhor não deixar ela entrar.
Texto: Luana Azeredo

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A casa

Outro dia quando ela saía de casa, lembrou como era alguns anos atrás.
Lembrava das roupas na varanda.
Das roupas que caiam umas sobre as outras.
Das portas duplas compradas por acaso.
Lembrava das chaves trocadas.
Por um tempo foi tudo tão embaçado, tão visualmente imperfeito, tão difícil de entender.
Ela carregava o peso do mundo.
Não percebia o giro das coisas à sua volta.
Permaneceu assim meio dormente por quase um ano.
Quando acordou não queria ver.
Começou a andar de óculos escuros.
Escondia as mãos no elevador.
Mal saía de casa.
Trabalhava e na época o trabalho era terapia.
Era onde esquecia por vezes o gosto amargo.
Caminhou.
Não esqueceu de tentar.
Buscou como poucos a alegria de viver.
Tropeçou daqui e dali.
Entrou na sala.
Viu as portas e janelas fechadas.
Ouviu palavras de consolo.
Um dia, fechou o coração.
Nada há de entrar.
Há de ser feliz assim
Era engano.
Não esquecia.
Seu coração continuava vivo.
Pedia todo dia pra enchê-lo de amor.
Ela seguiu.
Procurou.
Encontrou.
Ela encontrou.
Texto: Wandréa Marcinoni



domingo, 13 de outubro de 2013

Deixa pra lá

Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar
Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.
Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.
De dia caio minh’alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.
Texto: Antonio Cicero
Imagem: Maísa Coutinho

O monopólio da tristeza

Se não é aquela que me invade na noite escura.
Talvez seja quem me acompanhe no dia claro.
Talvez seja quem deita em minha cama.
Ela é guardada comigo como tesouro.
Desvendo aos poucos com quem me abro.
Às vezes sou pega de surpresa com perguntas ou mesmo afirmações.
Eu sei o que é certo e verdadeiro.
Mesmo assim nego sistematicamente.
Ele me olha.
Ele me fala.
Ele me interpreta, mas não me salva.
Antes me afoga em águas salgadas e profundas.
Antes me esquece e me cobra.
Esse começo que já é fim, tem pedras e pontas e estalos e mares.
Não sei flutuar.
Apenas me escondo na expectativa que ele me esqueça.
Ou então que me aceite como uma erva daninha no meio das flores.
Ou que pode meus espinhos.
Ou que esqueça de acusar.
Ou que tome partido de mim.
Mas ele não há...
Ele não há...
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Brooke Shaden

sábado, 5 de outubro de 2013

Perguntas

Por que dói meu coração?
Por que não sou como os outros?
Por que não acordo-trabalho-descanso-me movo?
Por que não durmo?
Por que não saio?
Por que me prendo?
Por que não sou?
Por que deixei de ser?
Por que não me encaixo?
Seria tão fácil.
Seria mais.
Seria o nexo e sentido.
Seria aceita.
Por que não me movo?
Por que eu aceito?
Por que?
Por que ao meio dia?
Por que só meia hora?
Por que à meia noite?
Por que?
Pra sempre?
Assim...a peça...sem encaixe?
Por que?
Por que só?
Por que pra sempre?
Por que?

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Mundo

A profecia dizia que passados 4 anos a terra estremeceria, os vulcões entrariam em erupção, os sinos tocariam   som estridente, a fala sumiria, qualquer apego materialista tomaria novo rumo, sentiríamos falta de ar, torceríamos por   luz, correríamos de encontro a uma encruzilhada, faríamos oferendas, rezaríamos terços, louvaríamos, teceríamos planos infindáveis, nos torturaríamos, fugiríamos, trabalharíamos, descansaríamos, seríamos, dominaríamos. A vida dizia que o sonho não basta, que  a vontade não é senhoria, que os tantos percalços são só consequências . Ninguém teimaria. Não levantaríamos a voz. Mas no fim seríamos donos de nossa própria desgraça e nos consolaríamos uns aos outros, como crianças que não se importam com a mesa mal posta, com a escrita mal feita, com a história e sua deturpação. Sonharíamos que não éramos nós mesmos e dormiríamos em berço esplêndido e daríamos vivas à liberdade e à nossa eterna capacidade de seguir em frente.
Texto: Wandréa Marcinoni

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Passamento

O ultrajante descaminho em que me encontro, é fruto da ausência de direito.
Não vou nem venho.
Não sou.
Não falo.
Me resumo ao silêncio sufocante de palavras guardadas por anos.
Náufrago, deserto, fadiga e inspirações.
Tenho um só ouvido.
Um só poço de memórias e mágoas.
Um só porto.
Um só.
Prisão sem grades.
Liberdade imposta.
Barco à deriva.
Mar revolto.
Caminho sem volta.
Escuro da noite.
Eu só comigo só.
Eu sem você.
Eu naquele sufoco de vida sem tempo e sem rumo.
Eu que corro e agito.
Eu na minha aflição de menina mais velha.
Eu com minhas marcas e maus presságios.
Eu sou o inverno.
Eu  calo e engulo.
Eu  e as dúvidas, anseios, pensamentos, ambiguidades, passamentos.
Pequena menina.
Menina sem rumo.
Menina mais velha.
Texto: Wandréa Marcinoni

O dia que passou


Essa sensação


Pensamentos

O domingo.
O sol.
A terra vermelha.
A estrada.
O passo.
A água.
A queda.
A vida.
A esperança.
A reação.
A fuga.
A culpa.
O choro.
O ombro.
A noite.
O sono.
O dia.
O começo do fim.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Um domingo


"Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.

Clarice Lispector

sábado, 10 de agosto de 2013

Quantas lembranças as músicas nos trazem

Meu pai

Ser pai de verdade é tão difícil.
Tem de aprender um tanto de coisas.
Tem  que começar a amar sem sentir.
Na barriga não lhe cabe.
A natureza não deixou.
Daí que só cabe o coração.
Tentar acertar.
Como é que faz?
Como é que cuida?
Por que que chora?
Por que depois deles a gente muda?
Como é que faz?
Pai é o cuidado, proteção, exemplo.
O  pai é uma mãe diferente.
Ele me faz falta.
Mas ele sempre está comigo.
Pra tudo.
Pra sempre.
Texto: Wandréa Marcinoni
Na véspera do dia dos pais.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

You still here

Essa semana cheia de compromissos foi cheia de alegrias e sortes.
A semana que passou dias atrasados.
Dias de cores que nunca foram
Dias de sol.
E sorte.
E vida.
A vida que passa ao longo da vista.
Vista embaçada.
A vida que vai e vem.
Aos encontros de todos os dias e a boca calada.
A boca que diz nada.
A mente que fala pelos cantos da casa.
Espero o dia de amanhã como quem espera a vida inteira.
Amanhã vida nova.
Amanhã será?
Falo pra ti e peço proteção pra quê?
Festa, repouso, descanso, descaso, de fato, das notas, palavras, cansaço, sono, frases e reflexões profundas em frente à TV.
Vai e depois me fala o que viu no caminho.
Eu...pequeno projétil com trajeto sem sentido.
Eu, de fato, não sei
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Do instante que mudou nossas vidas

Se não fosse por hoje.
Se não fosse por esta marca definitiva.
Se não fosse há 7 anos atrás.
Se não fosse a vida.
Se não houvesse o desencontro.
Se eu tardasse ou você.
Se tivéssemos pressa.
Se não houvesse tanta coisa.
Se o passado insistisse em nos rondar.
Se passássemos os anos indispostos.
Se não quiséssemos amar de novo.
Se não fosse o acaso.
Se não houvesse a tentativa.
Se não fosse o primeiro encontro, a flor e o guarda chuva.
Se não fosse o alarme.
Se não houvesse a viagem, o retorno, o encontro e todos os outros dias.
Mas especialmente se não fosse há 7 anos atrás.
Nós talvez nunca teríamos nos encontrado.
E talvez eu nunca pudesse experimentar a sensação única de ter certeza.
Essa certeza de que você foi feito pra mim.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Maísa Coutinho

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A casa amarela

No dia em que me esqueci de mim, passavam notícias no jornal.
Olhava perdida pras paredes brancas e focava no espaço entre os quadros.
Forjei uma visita que nunca houve.
Talhei em um pedaço de madeira tua marca no meu braço.
27 noites.
Uma receita com comprimidos inacreditáveis.
Uma fala engolida.
A certeza fingida.
No dia em que me esqueci de mim, olhei pra todos os lados.
Procurei em todos os cantos.
Só que a  todo instante vinham as imagens distorcidas da tarde em que te vi dormir.
Daí que houve a  frase não dita.
A frase que nunca esqueci.
Daí que pintei minha casa de amarelo.
Amarelo como a luz
Amarelo como o Sol.
Daí que os cacos juntos não eram mais eu.
Estava no fim.
Pra me erguer foram necessários mil dias, mil noites, mil goles, mil sopros.
Pra voltar foram mil passos.
Para colar mil pontos.
Para entender não deu.
Até hoje não dá.
Não dá porque foi quando me esqueci de mim.

Texto: Wandréa Marcinoni

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ouvindo agora

Das coisas que eu sei

E agora já é meia noite.
E agora já esqueci os meus planos.
E agora que falei sem pensar.
Cato os cacos e arrumo na prateleira branca da sala de estar?
E os fios soltos por fora do painel?
Quem achará a solução?
E ao atender o telefone e misturar as mensagens SMS com palavras ao vento?
E se alguém enxergasse dentro de mim?
Iria perceber toda confusão?
Da felicidade ao impacto e impotência.
Alguém percebe?
Alguém vê que não suporto mais?
Alguém vê as algemas invisíveis com luz neon?
Alguém olha além do umbigo do centro de si?
Alguém me dá a mão?
Senão ele, quem o faz?
As migalhas caem e já não estou disposta à juntá-las e digerí-las.
Não posso mais.
Desisto e essa não é minha glória.
Essa de fato, não é.
Texto: Wandréa Marcinoni

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Coisas que escrevo enquanto espero a vida voltar

Aqui no quarto há uma grande janela aberta. Pela janela vejo o céu nublado e uma chuvinha fina que teimou em cair durante toda a manhã. Minhas preocupações estão misturadas com as lembranças do tempo, do lugar, da sensação, dos sons. Não era assim, não era pra ser, mas em dois dias não inteiros falei e ouvi coisas que não queria. Procuro aqui um livro pra ler na tentativa de que o tempo passe mais rápido. Me faltam coisas essenciais, coisas que só eu sei o que representam. olho pros lados e tenho a velha sensação já conhecida. Lembro do dia em que assinei  a escritura do apartamento: eu, a caneta emprestada, os olhos marejados e ninguém por perto, ninguém pra dizer como foi, porque foi. Na televisão uma série de reportagens no programa da manhã que me parecem pautas sem graça...o tempo não passa, a vida não passa.
Texto: Wandréa Marcinoni

domingo, 26 de maio de 2013

A purpurina


A dose

Ela abre um espumante barato e brinda sozinha à volta da solidão. Não aquela que dói e fere, mas a solitude escolhida, que lhe abre um espaço macio pra ser. Ao primeiro gole percebe: o espumante é demi sec. Um equívoco para ilustrar a vida. O gole doce na taça rasa antiga de cristal azul que foi da mãe.
Repetições?
Tudo que ela quer é voltar a tomar posse de si. Ser dona dos seus desejos de novo. Quais eram eles?- não lembra.
Não é ruptura, é reencontro.
Desde que se tornou mãe. Desde que tomou posse da dor. Desde que se pôs na estrada. Desde quando?
Onde ela caminha nessa pista?
Há espaço para ultrapassar?
Para onde vai?
Larga o carro a pé para não levar mais peso consigo?
Em alguns momentos ela só quer aumentar o volume do som e cantar bem alto, com o vento nos cabelos. Em outros, quer ter o privilégio de não guiar o carro, com a certeza de ainda assim estar indo.
Ela se entrega demais, se entrega muito, inteira, não sobra nada para si. Nem sabe mais como é sua voz. Ela sai de si ao encontro do outro e deixa sua cama e sua casa vazias, sem o calor da sua presença. E depois cobra do outro o  que lhe falta. Mas foi ela mesma que se tomou de si.
E então ela dança sozinha pela sala e sente o corpo como há muito tempo, com saudade de quem foi.
Para depois dar mais um gole na bebida doce e amargar o gosto da escolha.
Exagerou na dose e a ressaca é toda sua.
Texto: Cristiana Guerra
Imagem: Ann Mei





sábado, 25 de maio de 2013

O que não foi assim será

Foi que você não me disse nada disso.
Tínhamos um pacto que falhou.
Nem você cuida de mim, nem eu cuido de você.
É bem simples assim.
Sem os devidos passamentos, maldições ou pragas amealhadas.
Não te dou minha honra.
Não me impões tuas neuras.
Não compactuamos da série vítima-maldição.
Não caminhamos descalços.
Não coroamos reis e rainhas.
Destruímos castelos.
Caminhamos em direções opostas e fazemos o esforço humanamente possível para nunca mais cruzarmos caminhos ou direção.
Eu aqui.
Você no Japão.
Cartas no lixo.
Presentes doados.
Sorrisos ocultos.
Choro engolido.
Mágoas varridas pra debaixo do tapete.
As latas no chão.
Não me arrastarás.
Não haverá mais imposição.
Os outros com outros olhos olham pra nós.
Nós que já fomos fortes.
Nós que hoje somos nós desatados, passos tortos, sonhos perdidos e uma mínima esperança escondida no bolso da calça.
Texto: Wandréa Marcinoni
Baseado no que nunca haverá de ter sido.

Toda terça

Eu sou daquelas pessoas que manipulam seu destino sem destreza.  Tantas vezes pude perceber minha não habilidade para coisas corriqueiras. Falar? Sempre preferi ouvir. Eu faço muito por todos. Tentativa de aprovação e aceitação. Espero retorno e ele   nunca vem. Corro. Sou míope. Olhar escuro. Tropeço e choro logo de manhã. Sou fruto mal construído. Desci as escadas. Estava na praça. Chegaram de carro. E o meu futuro evaporado?
E minha planilha não sustentada?
E minha falta de money?
E minha mola do mundo?
E a terça feira?
Texto: Wandréa Marcinoni
Baseado em sentimentalismos fugazes em noite de sábado
Imagem: Tatiana Deriy

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Hoje

A vida sem rotina. A casa sem paredes.
A vida.
Os quadros pendurados no teto.
O barulho de moer vindo da cozinha.
O estalar da pipoca no microondas.
A falta
Sentava e tinha premonições.
Arrepios só em pensar na última tarde.
O escorrer entre os dedos.
O tentar segurar o copo já no momento que tocou o chão.
Cortou a mão.
Correndo pro quarto achou apenas uma das camisas que raramente usava.
Enrolou o ferimento, mas isso a faria lembrar por muito tempo.
Olhou pra sua mão e viu que já havia parado.
Foi ao banheiro.
Lavou com sabão.
Voltou para sala.
Os quadros agora estavam no chão.
Sua alma agora na boca.
Seu peito acelerado.
Sua vida e sua rotina.
Sua casa.
Seu descanso do seu dia.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Nicoletta Ceccoli



quarta-feira, 1 de maio de 2013

O mar e o pensamento

"O que penso,
O que digo,
O que sou...
Pingo de chuva no mar."

Texto: Helena Kolody

Imagem: Arquivo pessoal

O inventário

E daí que ela deu de sonhar.
Desde que o interventor abandonou o barco se achou digna de regalias e soberba.
Ela era ingênua.
Achava-se dona do seu lidar.
Não admitia tropeços e usava de impáfia por vezes.
Um dia desdenhou de uma conhecida.
Passado o tempo houve um breve e leve arrependimento.
Ousou sonhar e caiu.
Do último e derradeiro andar.
Se viu como na valsa vienense ou numa crônica de Nelson Rodrigues
Sem casa, sem alma, sem par.
Logo ela, logo ela...
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

O tempo e o vento

Da primeira vez que te vi foram só as palavras.
A imagem na praia do rio.
O cabelo molhado.
A escrita perfeita.
Mal sabia o que viria.
A segunda vez que te vi foi meio em silêncio.
A despedida bem cedo da noite.
A terceira vez que te vi foi naquele cinema.
Antes do filme você me falou da escrita do blog do tempo da terra do nunca.
A quarta vez que te vi eu já esqueci.
Da quinta e da sexta nem sei.
Parei de contar quando perdi a cabeça.
Daí pra frente foram os dias, as flores, os doces, as marcas.
Daí pra frente o tempo parou.


Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

A noite

Entre temas repetidos eu vivo.
Não há nada que mude.
Há o eterno vagar.
Meu pensamento nunca se completa.
Simplesmente vou.
Tem um tempo que a vida me acenou.
Montado o palco foi me permitido atuar.
Logo eu que sempre preferi  os bastidores.
A vida.
O eterno caminhar.
O rumo.
A falta dele.
Hoje sou eu.
Mas será que sou?
Findado o dia, perdi.
Quando tento encontrar, já foi.
Ele ao meu lado fala que já foi.
Ele joga comigo.
E é um jogo que ainda não sei jogar.
É quarta feira.
É feriado.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Aparências




Apesar das cinco letras que sempre o acompanham, Sozinho parece ser ainda mais solitário do que Só: é como se ele se encolhesse por dentro e assim, diminutivo, nos revelasse como é grande a sua solidão.
Texto: Silvia Tavano

Leituras


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Nós

Olho pra mim numa paisagem que não reconheço, e me ver sorrindo na foto só aumenta a sensação de estranhamento. Mas a imagem confirma: aquele lugar existiu e aquela menina era eu. Então, apesar de não lembrar, acredito que esse dia aconteceu. Ao mesmo tempo, tantas vezes duvido de certas lembranças, e me pego olhando para o passado como se fosse um sonho que a memória inventou.
Texto: Silvana Tavano

Mar


A vida tem estranheza nas palavras. Esse eterno vai e volta. Ontem senti taquicardia apesar de engolir tantas lágrimas, tive vontade de não fazê-lo. Nunca tenho ao certo as rotas de fuga. Me enclausuro num mesmo eu: Pequeno, apertado, irrespirável. E aí, é tudo que tenho: um ambiente claustrofóbico e insalubre que é meu corpo e minha mente. Meu corpo com dores: braço direito, tornozelo esquerdo. Minha alma com agulhas.  À noite, o barulho dos carros que entra pela janela, o ventilador lembrando que faz calor. E um boa noite com sonhos. Sonhos que nunca vêm.
Texto: Wandréa Marcinoni

Dicas de trabalho



Quem trabalha com livros tem que estar preparado para tudo.
Hoje uma senhora muito simpática, de sorriso nos lábios, dirige-se ao balcão:
- Venho ter convosco para me resolverem um problema.
- Faça favor, estamos cá para isso.
- Eu comprei nesta livraria um livro e queria saber como o posso desparasitar?
Os outros clientes que estavam junto ao balcão riram em uníssono e sem pudor.
Nós fizemos uma cara séria e profissional, afinal de contas aquela era uma pergunta pertinente. 
A verdade é que vendemos livros antigos e alguns, raramente, mas acontece, trazem bicho. O que podemos fazer... Bem, profissionais como somos, não deixámos de dar resposta à cliente. Assim, aqui vai para quem quiser saber, a receita para nos vermos livres dos bibliófilos bichos e, ao contrário do que se possa pensar, não é com nenhum produto químico (existem vários), mas sim de uma forma muito natural: pega-se no livro, embrulha-se muito bem em plástico e coloca-se no congelador de um dia para o outro. Simples, mas eficaz. E sim, estamos mesmo a falar a sério.
Texto retirado do blog Pó dos livros

My wings

Poucas semanas e ela já se sente como se fosse eterna