quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

You're beautiful

Tem uma música em especial  que me faz lembrar você sempre. Naquele tempo, você bem pequeno, dormia em meu colo e dançávamos juntos, como se o dia não fosse acabar. Te amo pra sempre, pra todo sempre.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Mães

Maria mora em uma pequena cidade do interior de Goiás. Maria descobriu que estava grávida de gêmeos. Com toda sua simplicidade, ela sabia o que queria. Pegou um carro e veio à Brasília. Na primeira consulta num centro de referência da capital do país foi informada de que o seu atendimento estaria condicionado a um relatório médico. Voltou à sua cidade e pediu um encaminhamento ao médico do município. Não conseguiu. Foi à prefeitura, queria atendimento para si e seus bebês, Não conseguiu. Há 5 dias atrás observou perda de líquido. Procurou novamente o médico. O mesmo falou: Maria, na segunda feira vá à Brasília. Maria perguntou: Doutor, tenho que esperar até segunda? não há risco? O doutor manteve a orientação: Na segunda vá à Brasília. Maria e suas dúvidas obedeceram. Mas daí que vieram as dores do parto. Maria arrumou um carro. Contrações. Vamos pro hospital. Mas o primeiro ainda sem nome, nasceu. O doutor cortou o cordão com tesoura cega. Luvas? pra quê? Maria falou: doutor, tenho outro no meu ventre. O doutor procurou outro doutor, em outro hospital, em outra cidade. Lá o outro foi puxado pela mão. Nasceu. Não chorou. Faltou-lhe forças. A enfermeira pediu: doutor, vamos pra Brasília. Não temos incubadora, não temos nada. O doutor respondeu: pela manhã. Não há pressa. Ficaram os dois pequenos, de cor nenhuma, do tom do frio, do som da solidão, a noite inteira. Pela manhã, lá pelas dez, Maria e sua mãe a suplicar, correram, bateram na porta, pediram, imploraram, mas o doutor falou: não há pressa, vamos já, já. Pegaram a ambulância. O doutor resolveu parar no caminho. Estou com fome, dizia ele. Maria falou: mas eles não correm risco? Doutor respondeu: sim, mas tenho fome. Comprou coxinha e chá quente. E vinham eles: Maria, sua mãe, doutor, bebês, chá quente, coxinha. Sacolejavam e seu coração de mãe tinha medo do tempo, do vento, do quente, do frio, do chá. Chegaram. Ela não sabe como. Ela só sabe onde. Enquanto o motorista passava o caso aos plantonistas do Hospital, o médico, calado, escutava. Se identificou e saiu. Ficamos nós, Maria, sua mãe, seus filhos e a triste sensação de que vivemos num Brasil onde só o que importa é o meu pirão primeiro.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Stanka Kordic
Baseado em contos da carochinha

domingo, 17 de agosto de 2014

A dúvida do passarinho

Da árvore-poste de cimento
Um passarinho olha 
Bem que o passarinho queria perguntar:
Isso é o seu ninho
Ou você tem medo de voar?
Pra moça presa no congestionamento 
Dentro do seu carro-gaiola

Texto: Silvana Tavano
Imagem: Arquivo pessoal

Só eu sei


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Raiz

As releituras que eu faço  me distanciam de ti.
Os caminhos que percorro nesse caminho me levam pra não sei onde.
As palavras que repetes incessantemente me deixam confusa e por vezes perdida.
Não sei tomar as rédeas disso tudo.
Não sei quando calas nem sei de ti.
Tudo no fundo parece a eterna algazarra dos tempos de criança.
Daí, me consolo com a música do dia que nasce.
Te digo: tá bom e vou dormir.
Te aceito e me calo.
Engulo as palavras pra nunca mais.
Cansei de pedir.
Então, me esqueças enquanto puderes, porque eu
Eu nunca me  esqueço de ti.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

Não te espantes

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
Texto: Paulo Mendes Campos
Imagem: arquivo pessoal

Dois mundos

O mesmo vento envolve dois pensamentos
A mesma tarde quieta acolhe duas bicicletas
No mesmo segundo giram dois mundos
Texto: Silvana Tavano


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sonhos

"Escrever um romance é como dirigir na neblina"
Sérgio Rodrigues

Escadarias

Um tempo atrás, numa viagem qualquer, num tempo qualquer, ele me levou pra ver uma cachoeira. Era estranho, mas nunca tinha visto. De longe na estrada, já dava pra ver. Só que pra chegar, Tínhamos que atravessar uma ponte de madeira que balançava. Eu era muito medrosa. Eu ainda sou. Foi um caminho tranquilo. Chegamos ao lugar onde a queda se faz. A água lá se espalhava em gotas que pareciam estrelas. Molhei-me dos pés à cabeça. Foi a primeira e a última vez até hoje. Só que toda vez que lembro de lá, lembro em lágrimas. Lágrimas de gotas de cachoeira. Lágrimas de água doce. Lágrimas.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

terça-feira, 25 de março de 2014

Sombras

"Quanto mais ando a procura de gente


mais me encontro sozinho no vago...

e eu nem sabia mais o montante que queria,

nem aonde eu extenso ia...

mas talvez o que sentia,

solidão.”

Guimarães Rosa

Houve um tempo em que as lembranças cabiam no pequeno espaço lá fora. Coisas amontoadas por sobre as outras, roupas amassadas, o sol, o dia e a noite, os olhares, sorrisos e dor. Tudo misturado, menos ela. Catava tudo e amontoava. Preenchia o vazio do peito com a crença de que sairia dali. Às vezes de noite fazia sol. Às vezes o zumbido a fazia acordar e ela tinha medo. Medo do sonho sem ser sonho. Medo da realidade e suas armadilhas. Medo de si e dos outros. medo dos olhares no escuro. Medo da noite, do  dia e de si. Medo, apenas ele.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imegem: Nicoletta Ceccoli              

quarta-feira, 19 de março de 2014

Eu

A culpa minha, maior, é meu costume de curiosidade
de coração.

Isso de estimar os outros, muito ligeiro,
defeito esse que me entorpece


Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Arquivo pessoal

A volta

Agora ela deu de me dizer coisas.
De me lançar olhares por entre as frestas da janela
Hoje o sol acendeu pra mim
Me fiz de cega e chorei
Guardei todos os meus pertences em pequenas malas e me desfiz do que era sonho
Não murmurei
Não guardei pra mim
Fugi
Mas só em pensamento
Esse mesmo pensamento que me leva pra lá e pra cá
O mesmo que me faz querer desistir bem agora
Bem agora que consegui
Me esqueci de mim de novo
Passei a viver como o outro
Calcei meus sapatos e segui
Estava cansada pra pensar
Deixei pra lá
Só não sei até quando...

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

sábado, 8 de março de 2014

O que chamam de lar

6 lances de escada me separam do que eu fui.
Todo dia, várias vezes.
Um sobe e desce.
Um vem e vai.
Aqui da janela o céu é mais bonito.
Aqui  é fato que  os passarinhos me acordam  de manhã
Aqui crianças pulam em poças d'água.
Aqui tem sorriso de laranja.
Aqui são quatro ou cinco passos e se pode estar em qualquer lugar.
Aqui não conto mais  as horas.
Aqui é meu lugar.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal



Alegre era viver

"O certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundezas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma"
Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Maísa Coutinho

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Leitura


Distâncias

“O médico perguntou:
— O que sentes?
E eu respondi:
— Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias.”
Texto: Denison Mendes

Cansaço



O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 
A sutileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço.
Texto: Álvaro de Campos

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ontem

Meus sonhos consistiam em casa de quatro paredes, janela e porta.
Paredes brancas com detalhes azuis.
Flores coloridas na pequena varanda.
Café da manhã, almoço e jantar.
As texturas de tudo fugiam ao tato.
Preferia a sensação do desejar.
A juventude tem o dom da despreocupação.
O coração é mais manso que em outras épocas.
Poder dormir-acordar-dormir-sonhar-rever.
Acorda menina. Vem que a vida te chama.
Sente que não é bem assim.
Esquece teus planos e vem.
Destrói teus castelos.
Desce do pedestal.
Esquece a princesa.
Pisa na lama.
Caminha.
Olha pro Sol.
Vem.
Sou eu quem te chama.
Embora não saibas o riso à tua volta é falho conceito.
Não choram, não sangram.
Se metem a juiz dos teus dias de agora.
Pobre menina que não cresceu.
Ainda se empolga com poesia.
Ainda se sente como quem não pertence a mundo nenhum.
A ausência de fala.
A morte em si mesma.
O desencontro de ser.
Até quando?
Até quando...
Texto:
Wandréa Marcinoni
Em: noite estrelada
Em: dia de sol
Imagem: Max Moura Wolosker

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Das coisas que escrevi pra ele




Quantas vezes me vi na sala com uma fala já treinada por vezes e na hora H nada saía?
Quantas vezes as palavras entraram como flechas rasgando a parte do meu coração que já sangra há tanto tempo?
Quantas vezes tive que calar quando a vontade era gritar e agredir?
Quantas vezes o choro fiel veio me fazer companhia?
Quantas vezes me levanto pra no instante seguinte me ver cair?
É como um filme que não tem fim.
É dor.
É real.
É ele em mim.
Ele sou eu.
O eu melhor.
Eu serei ele.
Serei a capa e a conexão com esse mundo que de tão desentendido me deixa vagando na noite sem fim.
Texto: Wandréa Marcinoni
Em: Dores sem cores
Imagens: da vida

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ouvindo agora

Vai lá

Foi de tão longe que eu vim. Foi do tempo onde nem tinha mais lembranças. Foi lá da andança com mangas de camisa. Era seda. Era branca. Do lugar onde eu vim, mal me sustentavam as pernas. Foi tão longe de onde eu vim. Saber andar. Minhas mãos sem lugar. Saber olhar no espelho. Branca. Branca de neve. Essa ficou. Essa parece parada naquele tempo.  São lembranças que nunca somem. São o pesadelo da criança que não cresceu. Sentir-se sempre subjulgada e desfigurada. Pouco dona de si. Pouco sua nem de ninguém. Ela hoje é copo cheio ou vazio. Ela sou eu.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Nicoletta Ceccoli