segunda-feira, 19 de junho de 2017

Há algo de estranho

Há algo de estranho no ar
Há uma noite embaixo das nuvens
Há uma série de sussuros em meus ouvidos
Há cacos por baixo dos pés
Há dor latente em minhas pernas
Há as falas comuns e os gestos
Nada mais me comove
Ao mesmo tempo tudo me faz sentir
As lágrimas que rolam
Os sorrisos que se expressam em todas as bocas
O toque das mãos
Os gritos nos becos
Tudo então me comove
A criança que soluça
A menina que se entrega
Nada mais me comove
O corpo sobre a cama
A garota na praça de Copacabana
Subo ao apartamento
Lá não me reconheço
Lá nunca sou eu
É sempre o medo e a tensão
O sol arde lá fora
Meu coração estremece
Caminho e quero fugir
Não sou mais quem eu era antes
Nada mais me comove
Mas tudo ainda me faz sentir

Texto: Wandréa Marcinoni

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Ainda sou a mesma

Ainda sou a mesma
Ainda ando descalça
Ainda esqueço meus chinelos
Ainda gosto daquela roupa de estar em casa
Ainda tomo pelo menos dois banhos por dia
Ainda tenho agenda para ter colisão de compromissos
Ainda perco as chaves
Ainda gosto de escrever
Ainda coloco a comida aos poucos no prato por dar a sensação de que comi menos
Ainda choro em frente à tv em vídeos, filmes, reportagens, campanhas, comerciais e tudo mais que é estrategicamente criado pra fazer chorar
Mas não sou mais a mesma
Não como mais batata frita com maionese e catchup na parada da Deodoro
Não pego mais 4 ônibus para ir e vir da faculdade
Não uso mais sapatos coturno
Não tomo mais sol sem protetor solar
Não lembro mais os elementos da tabela periódica
Mesmo assim, tenho orgulho de quem fui e sou
Já quebrei em caquinhos e voltei reconstruída
E hoje tenho a sensação que sou capaz de fazer tudo de novo

Wandréa Marcinoni
Foto: Maisa Coutinho




segunda-feira, 29 de maio de 2017

Despertar

Ontem à noite sonhei com as estrelas
Primeiro tudo escuro, mesmo com o abrir e fechar dos olhos
Depois vi pequenos pontos brilhantes no teto
Como o céu dentro do quarto
Luzinhas misturadas com os meus pensamentos
Aqueles que não me abandonam
Aqueles que vão e vem
Desperto e depois tento dormir
Na mesma tarefa contínua
Depois percebo que não sonhei
Tampouco havia estrelas ou vaga lumes
Não havia lâmpadas piscando
Eram só meus pensamentos
Brilhando no teto branco

Wandréa Marcinoni



terça-feira, 23 de maio de 2017

Borboletas

Todos os dias eu ouço as coisas engraçadas que você diz
Meu dia já começa assim
Sentados na mesa
Crianças acordam
Há beijos e abraços
Geralmente não me recordo do que veio antes
Somos assim
Combinamos sempre
Você e seu mau humor
Eu e minha melancolia
Ouvimos de longe o jornal
Falamos de política em meio tom
Esperamos o dia de ir embora
Temos café quente
Você não quer o leite
Suas frutas cortadas em frente ao prato
Nosso ritual
É de manhã
É da gente pra gente mesmo

Wandréa Marcinoni

terça-feira, 16 de maio de 2017

Desconstrução

Minha perna que dói
Meus ossos fracos que estalam
Minha alma que vagueia no meio do caminho
A encruzilhada, os percalços, os pensamentos
Meus pés que já não têm pra onde ir
Os meus olhos e todo o meu sentimento derramado
Deito na maca e digo 33
Mas já passo dos 40
Eletrodos instalados
Músculos que contraem sem intenção
E ainda os tremores
O tempo que passa
O relógio conta as horas
Já passa das duas
E eu já vou embora

Wandréa Marcinoni

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Promessa de vida

Que bom poder  dançar em local público, parar em barracas de flores e sair com buquês, mandar 500 quadradinhos comemorativos, fazer bonecos de neves e topos de bolo, andar sobre pétalas amarelas, fotografar ipês, subir três lances de escada, comer nhoque de abóbora demorado, ir num show após o trabalho, receber declarações de amor, fazer viagem inesperada pra ver a banda preferida, mudar de casa, correr pra sempre, segurar na mão por medo de avião, passar uma tarde de sábado debaixo das cobertas, fazer uma vida, andar de bicicleta, descobrir o plano. Que bom poder saudade ter.

Wandréa Marcinoni

quarta-feira, 15 de março de 2017

Crônicas de uma UTI


No leito do bebê mais grave havia um desenho colorido. Traços de criança e a mensagem de quem espera seu irmão chegar, como quem diz: " fica bom logo!", "vem ver seu quarto" " eu sou mais velho, posso cuidar de você". Em meio a um grande alvoroço durante a manhã por conta dos selos de qualidade não conseguia parar de olhar pros traços e pensar no quanto seria bom se aquilo tudo fosse mais rápido e os pais e o irmão pudessem tê-lo em casa,  no quarto que foi feito pra ele, no colo da mãe ainda vazio, nos sonhos construídos, no silêncio que se fez quando ele não foi, nos olhares que ainda não trocaram. Mas ele dorme. Quem dera ouvisse meus pensamentos. Quem dera fossem barulhentos o suficiente para acordá-lo. Mas eu guardo pra mim.  Do outro lado uma mãe chora, meu coração pula, meus olhos enchem de lágrimas e aí eu finjo. Eu sou ela também, mas não posso chorar. Então minha boca cheia de palavras se perde em conceitos e meu coração desacelera. Volto a mim e termino o dia. Agora dei de sonhar que tudo é sonho e que quando voltar vou ver fotos emolduradas das famílias felizes com seus filhos nos braços. 

Texto: Wandréa Marcinoni

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Uma rua qualquer

"Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. Numa determinada pedra numa rua de Calcutá. Solta. Sozinha. Quem repara nela? Só eu, que nunca fui lá. Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento... Minha pedra de Calcutá".
Mario Quintana

Esquecimento

Eu assisto ao movimento sem acompanhar direito.
Digo a  mim mesma que vou saber me virar e vou ter disciplina.
Ao mesmo tempo que os pensamentos me impulsionam pra frente, todo dia mexo com as memórias
Onde me perdi de mim?
Anoto em um caderno meio surrado as coisas  que gosto de fazer: ver filmes,  sonhar alto, viajar, escrever, ler, correr, estar em movimento
Dos sonhos eu traço o futuro
Não consigo esquecer de nada
Sento e começo a dedilhar nas teclas do computador
Mil abas abertas
Mil planos
O reflexo do que sou eu
O rascunho mal feito
Meu coração pulsa
Eu sinto que ele ainda existe
E cada hora vem mais forte essa vontade de encontrar comigo mesma
Eu sou quem mais me entendo
Mas pouco converso
Me atenho ao silêncio como  se fosse uma joia rara em uma redoma impenetrável
Me escondo dentro de mim
Só eu sei onde estou
Bem no meio do labirinto
Um labirinto com paredes verdes
Como um jardim
Estou bem no centro
Está escuro, mas há estrelas no céu
Lá me ajoelho e rezo
Peço que me enviem um guardião alado
Que quando chegar me carregue nos braços
E fale pra mim, bem baixinho:
"Eu sei que você é mais"
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Mark Ryden

sábado, 7 de janeiro de 2017

Ilha

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, 
manhãs e madrugadas em que não precisamos de 
morrer. 
Então sabemos tudo do que foi e será. 
O mundo aparece explicado definitivamente e entra 
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as 
palavras que a significam. 
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas 
mãos. 
Com doçura. 
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a 
vontade e os limites. 
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o 
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do 
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos 
ossos dela. 
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres 
como a água, a pedra e a raiz. 
Cada um de nós é por enquanto a vida. 
Isso nos baste.

Texto: José Saramago

Cristal

Outrora ela achava nas caixas de brinquedos seres descontentes repartidos.
Faltava cabeça, braços, pernas e sabe-se mais lá o que.
Faltava cuidado.
Crianças nos seus encantos de ir e vir deixavam marcas nas frágeis criaturas
Ela também se julga assim: frágil criatura.
Pode se partir em pedaços  se não houver delicadeza.
Delicadeza em palavra ou gesto.
É tipo cristal.
Despedaça.
Quebra
Agora ela não crê mais
Nem em palavra.
Nem em toque
Não crê mais em nada
Texto: Wandréa Marcinoni

A moça do sonho

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais
Chico Buarque