quarta-feira, 8 de agosto de 2018

E atravessou a rua com seu passo tímido

Depois da viagem ao chegar ao consultório médico com duas horas de antecedência e aguardar  por  cinco horas, o coração foi na garganta
Pulsava como se não fosse dar tempo
Toda esperança guardada se foi
Olhar a cada cinco
minutos o relógio e perceber que a distância entre o momento e o avião era cada vez mais curta
Chamaram meu nome e daí não tinha mais certeza de nada
Do todo planejado o tiro saiu pela culatra
Comecei falando do começo
De dois anos atrás, mas acho que as palavras se atropelaram e chegaram no hoje correndo
A médica me olhava curiosa entre um bocejo e outro, como se pensasse mil coisas e sumisse dali
Começou a dar conselhos e divagar sobre suas conhecidas
Me fez uma pergunta repetidas vezes como se não houvesse atentado para a resposta
Estabeleceu um raciocínio e deixou clara a dúvida 
Me entregou papéis e me deixou sair numa despedida breve
Aguardei o taxi e saí pelas ruas engarrafadas de São Paulo
O taxista disse que daria tempo e deu
Fui cabisbaixa e em silêncio contando os passos para esse destino incerto e ainda longe
Destino  que não parece com hoje e por isso não me pertence
Vou pedir então ao céu que a chuva seja branda e que me molhe só se for para florescer

Wandréa Marcinoni

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Hoje

Hoje sentei à mesa e sorri, bem como ontem também o fiz. Talvez por 
nervosismo, talvez já seja um hábito. É que estou habitando esse mundo
paralelo em que tudo me estimula e às vezes tenho tanto interesse por 
tudo que meus parcos neurônios parecem entrar em curto-circuito. E já 
que hoje eu me sei de cor...acabo os dias do mesmo jeito...escrevendo 

sobre mim mesma

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Há algo de estranho

Há algo de estranho no ar
Há uma noite embaixo das nuvens
Há uma série de sussuros em meus ouvidos
Há cacos por baixo dos pés
Há dor latente em minhas pernas
Há as falas comuns e os gestos
Nada mais me comove
Ao mesmo tempo tudo me faz sentir
As lágrimas que rolam
Os sorrisos que se expressam em todas as bocas
O toque das mãos
Os gritos nos becos
Tudo então me comove
A criança que soluça
A menina que se entrega
Nada mais me comove
O corpo sobre a cama
A garota na praça de Copacabana
Subo ao apartamento
Lá não me reconheço
Lá nunca sou eu
É sempre o medo e a tensão
O sol arde lá fora
Meu coração estremece
Caminho e quero fugir
Não sou mais quem eu era antes
Nada mais me comove
Mas tudo ainda me faz sentir

Texto: Wandréa Marcinoni