quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Coragem

"Em uma época em que os desejos duram o tempo de uma estação, amar virou coisa de gente corajosa."
Fernanda Mello
Imagem: arquivo pessoal

Repouso

Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalho, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura
como âmbar dormido...

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo, só tu.
Sempre viva. Sempre sol. Sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados e
deixaram cair suaves sinais sem rumo. 

Teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva.
A noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho...

Pablo Neruda
Imagem: Mark Ryden

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Casas

Pedro mora na casa amarela da rua cinza de uma cidade muito grande. Júlia vive com a  cabeça nas nuvens, no último andar de um prédio que arranha o céu. Caio vive pra lá e pra cá: sua casa é onde seus brinquedos estão. Cris mora dentro do seu diário e lá escreve cartas que acaba não enviando pra João, que mora em outro país, numa casa que ela não conhece. Clara ainda está morando dentro da barriga da sua mãe. João sempre diz que sua casa é duas, a do pai e a da mãe. Às vezes, Tati se imagina morando lá longe, na casa-estrela de onde sua avó manda beijos brilhantes.
Texto: Silvana Tavano

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Estrada

Por que teus olhos já não dizem nada?
Parecem duas pedras imóveis 
E a  batida do teu coração não é como antes?
No pulsar arredio
Impassível da dura tarefa dos dias
Pobre rapaz
Pobre de mim
Doce futuro sem fim

Wandréa Marcinoni

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Sem título

E de todo o seu sofrimento sobraram o tempo passado, as roupas reviradas, a temperatura do vinho, a cor vermelha, o semblante cansado, a falta de paciência, o choro contido, as palavras que nunca fala. Hoje ela deu pra calar, consciente de que a falta de novidades não dá mais manchetes nos jornais. Calou porque queria falar. Ainda fala sem pensar. Ainda tem medo do escuro. O seu quarto é fechado. Suas jóias escondeu na pequena caixa no armário. As estantes estão empoeiradas e nos livros faltam  páginas que foram arrancadas. Resolveu e fez. Trancou, escondeu a chave e esqueceu aonde.

Wandréa Marcinoni

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Ciclos

A vida é feita de marcos

O dia que nasci
Quando disse minha primeira palavra
Quando dei meu primeiro passo
Quando caí
Quando voltei a caminhar
Quando a vida disse não
Quando errei
Quando aprendi
Quando voltei a viver
Quando soube o que é o amor de verdade
Quando dei valor e soube partilhar
Quando fui eu ou  deixei de ser
Quando era noite de festa
Quando o dia nublou
Quando a chuva caiu
Quando você chegou
Texto: Wandréa Marcinoni
IMagem: Maísa Coutinho





quarta-feira, 12 de agosto de 2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Lido

Lá fora tudo é silêncio
Aqui dentro também
Olhares que não se cruzam
Palavra que não se fala
Sentimento perdido no tempo
Tempo perdido no espaço
Meu passo que é descaminho
Minha memória desgastada
Minha lágrima que rola
Meus sonhos repetidos
Meu desalinho
Você sonho perdido
Você apego desmedido
A voz calou
Não te ouço mais
Faz o teu jogo na mesa
Eu saio
Me esqueces e não me vê
Não me ouve mais
Quero voltar a ser eu pra você
Mas não dá
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

A gente

A gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é
Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Maísa Coutinho

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A saga de Frida por Yuyi Morales








Da felicidade

E aí você está num momento da vida pessoal assim, de entressafra. De não saber o que vai ser. Os 45 anos chegando, volta e meia você se acha um ET. E aí um belo dia você ri com os amigos num final de dia de trabalho – e as risadas fazem cada segundo ter peso 10, recarregando você com pilha Duracell, pra ajudar a dar conta da rapidez e das exigências da vida. E aí você se lembra que mais risadas e mais amigos aparecem sempre, e surpreendem com um abraço forte para depois lhe pousar um olhar de “você não está só”. E aí uma amiga que você viu uma vez só na vida, mas que ficou no coração pra sempre, te manda lá de longe um playlist das mais lindas e delicadas. Quase três horas de músicas escolhidas por uma alma que conhece a sua. E você coloca o fone de ouvido, escreve de um jeito diferente, sorri por qualquer bobagem e entende que a vida é esse pedacinho de felicidade que chega como quem não quer nada e vai embora à francesa. Feita pra quem sabe reconhecer e aproveitar.
Cris Guerra- Amor e ponto
Imagem: Sandra Vargas

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Do apaixonar-se

Um dia, eu e essa pessoa desconhecida vamos nos encontrar por algum motivo, e uma intuição talvez nos diga que chegamos à vida um do outro. Eu não acredito sempre nisso. Mas não posso deixar de estar atenta. De todo modo sou assim mesmo: fico atenta a toda gente. Gosto de olhar discretamente. Confesso.
Imagino a vida dos outros. Não é por cobiça. É por vontade que dê certo. Por exemplo, vejo alguém sem cabelo e invento que há gente que só gosta de homens carecas, para que ser careca seja uma vantagem ou, pelo menos, desvantagem nenhuma.
Acho que invento a felicidade para compor todas as coisas  e não haver preocupações desnecessárias. E inventar algo bom é melhor do que aceitarmos como definitiva uma realidade má qualquer. A felicidade também é estarmos preocupados só com aquilo que é importante. O importante é desenvolvermos coisas boas, das de pensar, sentir ou fazer.
Texo: Walter Hugo Mãe
Imagem: Maísa Coutinho

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Frida

"Eu vou mal e irei pior ainda, mas aprendo pouco a pouco a ser só, e isso já é alguma coisa, uma vantagem, um pequeno triunfo."
 Frida Kahlo
Foto: Alexandra Liedtke 

Da desesperança


A esperança parece inventada pela espera. Eu não sei esperar. Todos os dias me assusta não ter esperança. Quero muito ter. A minha mãe manda fazer um esforço. Ela diz: acredite, sempre. Eu acredito, só não estou certa de saber ficar à espera. Quando for maior vou seguramente melhorar nesse desafio.
Texto: Walter Hugo Mãe
Imagem: Maísa Coutinho

O paraíso são os outros

As pessoas que amam estão sempre com um ar de urgência, porque elas têm saudade quando não estão acompanhadas e sentem uma euforia bonita quando estão juntas.
Eu acho que as pessoas apaixonadas sentem saudade mesmo quando estão juntas, porque ficam sempre a olhar umas para as outras pasmadas como se fosse a primeira vez. Até como se fosse a primeira vez que vissem sapos, neve, cataratas, aqueles peixes voadores, jacarés, prédios de trinta andares ou o Miguel a enrolar os olhos.
Texto: Walter Hugo Mãe
Imagem: Maísa Coutinho

terça-feira, 28 de abril de 2015

É preciso colocar o amor na escola

Duas da madrugada. O casal que discute no andar de baixo está tentando aprender. Eles pensavam que era só vestir branco, caprichar na decoração e fazer os convites chegar a tempo. Mas não. Na escola, até logaritmo nos foi ensinado. Decoramos a tabela periódica. Nos empurraram química orgânica. Mas nada nos foi dito sobre o amor. Crescemos acreditando que o amor é um golpe de sorte. Algo que surge naturalmente. Quem tem o privilégio de encontrar não precisa fazer nada: o amor simplesmente será. E, enquanto nos livrinhos os príncipes acordam princesas para viverem felizes para sempre, nós seguimos dormindo, sonhando com o impossível.
Com as mais altas expectativas, saímos buscando sapos nas prateleiras. Em meio a tantos produtos, nos confundimos com eles. Comida para nos matar a fome, roupa para nos vestir, gente para nos aplacar a solidão. Casar é prova de competência: nota 10 em investimento.
Na lógica capitalista, o amor se vai junto com a embalagem. Consumidores do novo, aguardamos ansiosos pelo próximo lançamento. As promessas são cada vez mais atraentes. Amores utilitários, perfeitos para exibir. Excelente custo-benefício, atendem a todas as nossas necessidades - físicas, estéticas, financeiras, sexuais. Enxergamos no outro um espelho dos nossos desejos, até que a imagem se desfaz e resta apenas o outro - que pena, ele não é como a gente sonhava.
Se o amor é a fuga para esse sentimento de solidão que nasce com a gente, o "consumo" do amor reafirma o abandono. Amores que não se tocam, não se misturam nem se entregam, etiquetas adesivas que permanecem na superfície. Nos corredores dos supermercados, egoísmos a dois fazem as compras do mês. Um empurra o carrinho, o outro paga.Amar é pouco. É preciso inteligência, cuidado, respeito.
Amor pede o abandono de si, de vez em quando. Pede responsabilidade. Quanto amamos é menos importante que como amamos. O amor da mãe pelo filho que nasce não é automático: será preciso adotá-lo e entender que não, ele não trará nada em troca. O marido que quer a separação usa o filho como arma - ou escudo. Faltou aprender que pessoas não são coisas. Nem nós, nem os outros.
Vamos exercitando, embora nem sempre em tempo, nas escolas informais da paixão. Os parceiros são nossos professores. Amores que acumulamos, transformados em ódio, desprezo ou amizade, sempre podem ser lição. O amor com que amei o primeiro permanece em mim, mais forte para o último. É preciso colocar o amor na escola. Humildemente, aprender. É sempre um novo idioma, linguagem cheia de armadilhas. Há que treinar a pronúncia e se deixar levar pelos sons de outro país. Amar é uma arte, como é uma arte viver. A paixão é o projeto da casa.
O resto é tijolo a tijolo. O amor não é para amadores
Texto: Cris Guerra
Imagem: Carol Porto

Amanhã

"Amanhã fico triste, amanhã. Hoje não. Hoje fico alegre.
E todos os dias, por mais amargos que sejam, eu digo:
Amanhã fico triste, hoje não. 
Para hoje e todos os outros dias!"
Frase encontrada na parede de um dormitório de crianças do campo de extermínio nazista de Auschwitz

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Saudade é o amor que fica


Como médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional (...) posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além. Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional... Comecei a freqüentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria. Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer. Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças.
Até o dia em que um anjo passou por mim! Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas de químicos e radioterapias. Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar. Vi-a chorar muitas vezes; também vi medo em seus olhinhos; porém, isso é humano!
Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.
— Tio, — disse-me ela — às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores... Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!
Indaguei: — E o que morte representa para você, minha querida?
— Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é? (Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exatamente assim.)
— É isso mesmo.
— Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!
Fiquei "entupigaitado", não sabia o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança.
— E minha mãe vai ficar com saudades — emendou ela.
Emocionado, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei:
— E o que saudade significa para você, minha querida?
— Saudade é o amor que fica!
Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas, deixou-me uma grande lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores. Quando a noite chega, se o céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo "meu anjo", que brilha e resplandece no céu.
Imagino ser ela uma fulgurante estrela em sua nova e eterna casa. Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que me ensinaste, pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno.
Seja mais humano e agradável com as pessoas.
Cada uma das pessoas com quem você convive está travando algum tipo de batalha.
- Viva com simplicidade.
- Ame generosamente.
- Cuide-se intensamente.
- Fale com gentileza.
- E, principalmente, NÃO RECLAME!
| DEFINIÇÃO DE SAUDADE - artigo do Dr. Rogério Brandão, Médico oncologista |

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Fórceps

Em frente a ela seus olhos
Vinho tinto cor de sangue
O manto cobrindo seus pecados
Seus pensamentos tomados de fúria
O combinado
O preço, você bem sabe como pagar
Pagar com a verdade do que disse antes
Eles são parte
A parte dela
Que era sua
Que não é sua
Que nunca foi
Comida
Abrigo
Cuidado
Ela em dois
Em metades
Fugiu
Tentativa
Forçada
Cansada
Agora é consumo
E prisão
Fugiu
Fugir
Quem é ela?
Quem já foi?
Quem será?
Pergunta
Sem resposta
Sem paz
Sem vez
Você tem a palavra certa
Aquela que dói
Aquela que fere
A ela
Ninguém mais
Texto: Wandréa Marcinoni

terça-feira, 7 de abril de 2015

Carta para alguém

Se você não está aqui, para que os morangos na geladeira? Talvez eles se percam antes que você volte. Talvez, em vez do chantili, eu faça um biscoito de nata com aquele creme de leite fresco. Para relembrar a infância ou algum outro lugar que não tenha você.

É incômodo pensar que eu mesma terei de decidir o que fazer com cada resto, cada marca, cada futuro desmanchado que ficou. A fechadura estragada, a luminária ainda por instalar, as paredes manchadas (vou cobri-las com papel de parede, já que pintá-las seria uma tarefa nossa).

Andei pensando - o que fazemos na falta, além de pensar? Parece que sempre fica algo a dizer. Em mim as palavras têm surgido como bolhas de sabão: remexo o pote e dali saem os mais lúcidos raciocínios. Pena que no calor da discussão as bolhas não surjam, para nos trazer a leveza de enxergar.

Talvez fosse melhor conversar sempre por carta. Lembra quando surgiram os e-mails e um certo romantismo voltou a fazer parte da nossa vida? Hoje, retomamos a ansiedade das respostas imediatas. O conflito ganhou sua versão móvel e nos acompanha para onde formos, num aparelhinho que antes só esperávamos tocar. Nem quando estamos sós podemos levar o silêncio.

Cartas, não. Cartas são emoções embrulhadas. Enviam dor, lágrima, saudade, fascinação. Quem as recebe sente o calor de quem sente. Cartas aproximam. Já as mensagens instantâneas parecem dar a largada para uma disputa de desencantos.

Deixo registrado, então. Que o silêncio fica melhor com a sua presença. Que a iminência do fim tem o poder de colocar um holofote sobre a verdade, justo quando não há mais tempo para procurar o que se perdeu. Que nos momentos de falta fica evidente o que é de fato importante. Que só compartilhamos com os amigos os momentos difíceis a dois. Não ligo para nenhum deles depois de um dia bom, para contar detalhes da paz que sentimos juntos. Momentos serenos não são cheios de detalhes, eles simplesmente são. Talvez por isso, porque só nos ouvem na hora do aperto, eles passem a torcer pelo fim. Juntos, nós os angustiamos.

Já reparou que só é capaz de ceder numa relação quem está mais seguro e sereno? Pois é, nem sempre estamos. Penso, concluo, choro. São as águas de março fechando o verão. “A saudade é terapêutica”, dissemos um ao outro. Devo estar agora num spa.

Agora que tudo acabou, preciso dizer que foi bom. E confessar que também não foi. As coisas podem ser boas e ruins ao mesmo tempo - a sombra persegue a luz. Agora que tudo acabou, tudo começa no quarto, luz apagada, a ausência gritando feito uma louca encarcerada. Agora que tudo acabou, as paredes dizem verdades que não quero ouvir. Descubro que nada acabou. Vou até a cozinha devorar os morangos. Espera, é a campainha. Acho que é você.

Texto: Cris Guerra
Imagem: Benjamin Lacombe

terça-feira, 31 de março de 2015

Bem vindo à Holanda

Ter um bebê é como planejar uma fabulosa viagem de férias – para a ITÁLIA! Você compra montes de guias e faz planos maravilhosos! O Coliseu. O Davi de Michelângelo. As gôndolas em Veneza. Você pode até aprender algumas frases em italiano. É tudo muito excitante.
Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia! Você arruma suas malas e embarca. Algumas horas depois você aterrissa. O comissário de bordo chega e diz:
- BEM VINDO À HOLANDA!
- Holanda!?! – Diz você. – O que quer dizer com Holanda!?!? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu sonhei em conhecer a Itália!
Mas houve uma mudança de plano vôo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar.
A coisa mais importante é que eles não te levaram a um lugar horrível, desagradável, cheio de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente.
Logo, você deve sair e comprar novos guias. Deve aprender uma nova linguagem. E você irá encontrar todo um novo grupo de pessoas que nunca encontrou antes.
É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor, começar a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrants e Van Goghs.
Mas, todos que você conhece estão ocupados indo e vindo da Itália, estão sempre comentando sobre o tempo maravilhoso que passaram lá. E por toda sua vida você dirá: – Sim, era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu havia planejado!.
E a dor que isso causa nunca, nunca irá embora. Porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.
Porém, se você passar a sua vida toda remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais sobre a Holanda.
Texto: Emily Perl Knisley, 1987

Noite

Um dia antes de dormir, parei pra pensar na saudade. Saudade daquele tempo de leveza sem final. Não se tratava de exagerar a felicidade, mas do cheiro, gosto e sensações que os momentos têm. Por vezes tentava dormir, mas a saudade não deixava. Misturava na minha cabeça passado, presente e futuro num fluxo de idéias tão grande que se tornou impossível. Às vezes ao deitar deixo a janela aberta e escuto a noite. Escuto carros estacionando, escuto o morador do andar de cima que ronca sem parar, escuto o silêncio. Meu coração palpita quando escuto passos leves e um discreto bater na porta. Abro e o olhar assustado do imprevisível me aguarda. Me considero uma lutadora. Alguém que foi vítima e refém. Alguém que dá passos lentos, mas que luta em silêncio, engole a dor, chora por dentro, se amedronta. Hoje pela manhã, quando a luz acendeu, ficou escuro pra mim. 

" Talvez eu siga regras e valores aos quais  não abdico. Privacidade corresponde a proteger quem amamos de nosso orgulho e soberba. Escolhi viver com ela e, apesar de afastado por alguns dias, continuo vivendo com ela. Longe ou perto, não mudo em nada da minha mentalidade...

Há sempre uma ponta de melancolia em minhas andanças sozinho, uma brisa fria a sussurrar em meus ouvidos o quanto ela gostaria daquele espaço.

Eu me torno um olheiro sentimental... conheço paisagens e locais só para depois mostrar para ela. Minha função é recrutar alegria para nós - e descobrir o que provocará seu arrebatamento. Transformo a visita solitária em convite a dois: "Passei por um lugar que vai adorar, pensei na gente".

E o mais bonito é que ela faz o mesmo, sem jamais combinarmos a troca de gentilezas."

Texto: Wandréa Marcinoni
Entre aspas: Fabrício Carpinejar
Imagem: Benjamin Lacombe

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Ouvindo agora

Meu dia

O despertador insistia em tocar. Ela apertava a função soneca a cada 5 minutos como se ainda restasse alguma chance de dormir sem hora para acordar. Alguns raios de luz teimavam em entrar pelas brechas das cortinas e foi então que ela se deu conta:  é agora ou nunca! Levantou em um pulo, dobrou as roupas de cama, tirou o pijama hospitalar e enfiou na mochila vermelha inseparável. Juntou cada caquinho de si mesma, pegou suas tralhas e desceu a tempo de bater o ponto com algum atraso, O que no final das contas não significava nada. Foi pra casa e ao entrar soou o alarme dos sem café. Correu deseperada ao mercado mais próximo. Precisava de um filtro, não mais do que isso. Enquanto procurava sentiu o cheiro do pão quentinho saído do forno. Resolveu então esperar, afinal, já estava ali mesmo. Chegou em casa pela segunda vez. Já era a hora de levar o filho para a natação. Um café rápido e foi à luta. Água fria, tempo quente. Em casa agora pela terceira vez. Tomou um banho, almoçou e seguiu: pega kit, vai ao salão, ressonância, o laudo normal, a comida, a sobremesa, o vaso rosa, a vida. Retorno, ansiedade, desafio, a escola, o enfadonho perceber que a luta é grande e os desafios sem fim. O ir dormir, o choro, a birra, o curativo pras dores da alma. Não tem, não pára. Sobe na cadeira e grita. Mas grita bem alto que a vida é combate que aos fracos abate e aos bravos aos fortes só faz exaltar.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Benjamin Lacombe

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Onde não houver amor não te demores


Mariposas

De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa  

O Grande Desastre Aéreo de Ontem

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranquila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol

Texto: Jorge Lima
Imagem: Stanka Kordic

As palavras que não dizemos

João queria pedir desculpas. Teresa queria declarar o seu amor. Luíza, desaguar os anos de mágoa. Pedro queria pedir um abraço. Joana, perdão. Lúcio queria apenas licença para ser quem era. Paulo, aprovação. Camila, explicação. Helena queria dizer que não faria de novo. Não, outra vez não. Fabrício queria um sorriso. Ana, devolução. José queria dizer obrigado. Marília só queria que soubesse que havia perdoado. Foi, deu, ficou pra trás. Cecília queria dizer não. Augusto, sim. Frederico queria dizer adeus.
Mas João não disse. Nem Teresa. Nem Luíza. Pedro. Joana. Ou Paulo. Camila. Helena. Não disse o Fabrício. Nem a Ana. O José. Marília ou Cecília. O Augusto não disse. Frederico também não. Não disseram porque tiveram medo. Por causa da distância. Não disseram porque faltaram as palavras. Faltou a oportunidade, a força de vontade. Não disseram porque emudeceram, porque as línguas eram diferentes como diferentes eram os sinais. Não disseram porque não valeria à pena. Não faria a diferença. Porque não conseguiram. Porque deixaram para depois, e o depois nunca chegou.
São infinitas as razões e não razões pelas quais deixamos de dizer algo que precisávamos ter dito, gostaríamos de ter dito. Não apenas por falar. Para desatar nós e seguir adiante. É que o silêncio, às vezes, é menos assustador que a palavra. No silêncio, somos rei e senhor. Nosso domínio é soberano, porque só a nós diz respeito. Quebrar o silêncio é arcar com as consequências. É enfrentar. O silêncio não traz enfrentamento, e os riscos são poucos. Mas as alegrias também. Quantas pessoas passam a vida sem ter dito o que realmente queriam? Sem ter feito as pazes ou ter rompido o que deveria ser rompido? Sem dar sequência ou terminar o que deveria ser terminado? Um ponto final ou um ponto de partida. Não. As palavras não ditas são reticências.
A palavra não dita consome e esmaga. Dependendo daquilo que se quer dizer, o não dizer é um discurso calado, solitário e ininterrupto. É um nó que não desata. Um conjunto de letras e sílabas com o peso de todas as letras, todas as sílabas e todas as combinações possíveis do todos os alfabetos, porque é aquilo que não teve um fim. Ficou por ser.  A palavra não dita é a palavra que, presa, aprisiona. Entristece. Não são as palavras feias as mais doídas. As mais doídas são as palavras não ditas.
Se você tem algo por dizer, diga. Não deixe para depois, porque o depois pode não chegar.

Daqui: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/uma-so/as-palavras-mais-doidas-sao-as-nao-ditas/

I was afraid



Preocupação

É como uma nuvem que estaciona em cima da gente e encobre o pensamento em sombras, anunciando uma tempestade que nem sempre acontece.

Silvana Tavano

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O amor bate na aorta

"Daqui estou vendo o amor irritado, desapontado... 
Mas também vejo outras coisas: 
Vejo beijos que se beijam, 
Ouço mãos que se conversam 
e que viajam sem mapa. 
Vejo muitas outras coisas, 
que não ouso compreender..."
Carlos Drummond de Andrade