quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A porta

Se a paixão se aproximar, não deixe ela entrar. Não deixe ela passar da porta, não, nem morta! Paixão é visita que não vai embora, que aceita mais um café, que passa da copa para a sala de estar sem cerimônia, que fica pra assistir TV e filar o jantar. Paixão é visita que pede pouso, pijama emprestado, travesseiro afofado. Paixão é do tipo que não entende indireta e nem se afeta pelas mandingas do tipo vassoura-de-cabeça-pra-baixo-atrás-da-porta. A paixão fica, se aconhega, se sente em casa. Paixão é amiga espaçosa, que abre a geladeira, come a sobremesa direto do pirex, tira o sapato e tem sua própria escova de dentes guardada no banheiro. Uma vez dentro, a paixão insiste em não sair. A paixão te faz refém na sua própria casa: você tem todos aqueles compromissos e ela não te deixa sair, todos aqueles livros pra ler e ela fica tirando a sua atenção, todas as contas do mês para pagar e ela diz que não. Paixão, além de tudo, é bicho vaidoso, quer atenção, quer os olhos vidrados nela, não te deixa nem ver a novela nem relaxar no sofá. Então, se a paixão passar, melhor não deixar ela entrar. Ela vai ocupar seu tempo, seu espaço e depois seu coração. Você vai se apegar à paixão. Vai se apaixonar por ela. E quando você menos esperar, ele traz mala, cuia e papagaio, e de visita vira inquilina – aí, ai de você se pedir pra ela sair.
Então, se a paixão passar, melhor não deixar ela entrar.
Texto: Luana Azeredo

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