segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Da semente do girassol


(…) Hoje eu comprei sementes de girassol. Há isso de extraordinário no mundo. Quando alguém se sente só ou com saudade de outrem pode comprar sementes de girassol para vê-las crescer. Pode até fazer uma sementeira de tulipas. Nesse caso, é preciso aguar todos os dias, com a ponta dos dedos, deixando cair uma ou duas gotas, apenas. Já as coisas abrutalhadas: máquinas, tratores ou edifícios: deixo aos outros, cuidarem. Também elas precisam de carícias: não vê o homem pendurado nas vidraças com um pano molhado? Não vê a máquina acarinhando a outra com a lixa? Há muitas formas de cuidar. E, felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo. Se me ocupo da semente é porque escuto o seu silêncio. O silêncio com que ela abraça, tão brandamente, o seu grãozinho de terra.

Texto: Rita Apoena
Imagem: Matt Pasquarello

Da solidão


Quando Miguel perguntava quem era a sua mãe, ou onde morava o seu pai, o avô tossia para um lado, tossia para o outro, arranjava um resfriado, uma dor nas costas e só lhe respondia: “Ô Miguel, a sua mãe já volta. Daqui um pouco ela volta…” Mas a mãe nunca voltava, nunca.

Ele desmanchando as rabiolas. Ele olhando no portão. A cada laço que desfazia era uma esperança que se soltava, e ele já tinha reparado: quando as pipas voavam embora, elas voltavam para nunca mais.

O avô dizendo: “Ela já volta…” O relógio dizendo: “Ela já volta… ” e outra volta e outra volta… o relógio faz volta, mas o tempo, não. A latinha dando voltas na linha. O avô enlaçando o menino nos braços, dizendo que o abraço era só um ponto que a vida dava para costurar o amor.

Texto: Rita Apoena
Imagem: Holly Clifton Brown

Questão de ponto de vista


Se um dia te chamarem de gordo, lembre-se: você é maior que tudo isso...
Citação: desconheço a autoria
Imagem: Fernando Botero

Ela perdeu a cabeça


Achei essa imagem aqui: http://naosenteaomeulado.tumblr.com/

Regras do perfeito português


Eufemismo: s. m. ato de suavizar a expressão de uma idéia, substituindo a palavra própria por outra mais agradável, mais polida.

Like this: Ela passou desta para a melhor...

Imagem: Scott G. Brooks

A garota do girassol ouve esta


Eu tento me erguer
Às próprias custas
E caio sempre nos seus braços
Um pobre diabo é o que sou...
Um girassol sem sol
Um navio sem direção
Apenas a lembrança
Do seu sermão...
Você é meu sol
Um metro e sessenta e cinco
De sol
E quase o ano inteiro
Os dias foram noites
Noites para mim...
Meu sorriso se foi
Minha canção também
Eu jurei por Deus
Não morrer por amor
E continuar a viver...
Como eu sou um girassol
Você é meu sol...
Eu tento me erguer
Às próprias custas
E caio sempre nos seus braços
Um pobre diabo é o que sou...
Um girassol sem sol
Um navio sem direção
Apenas a lembrança
Do seu sermão...
Morro de amor
E vivo por aí
Nenhum santo
Tem pena de mim...
Sou agora
Um frágil cristal
Um pobre diabo
Que não sabe esquecer
Que não sabe esquecer...
Como eu sou um girassol
Letra: Edgard Scandurra
Imagem: Getting images

Ela pensa demais


Era tarde de domingo no parque.
Havia movimento intenso no salão.
Ela estava na penúltima mesa ao canto.
Ele chegou meio perdido...antes das duas televisões no corredor.
Sentaram-se.
Almoçaram e conversaram um pouco.
Passearam de carro na chuva.
Ela pensou: porque as horas têm que passar?

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Nicoletta Ceccoli

Recitais com alma e poesia


Certas vezes ela se dirigia aos recitais para ouvir as músicas e esquecer o dia. Ouvir musicas fazia com que ela deixasse que os momentos se dissipassem como nuvens de fumaça e todas as suas preocupações ficavam para trás em poucas horas. Naquele mesmo dia ela havia passado pela mesma rua onde as janelas se fecharam para ela...caminhou o mesmo caminho...apesar de ter jurado não o fazê-lo nunca mais...entrou pela porta entreaberta e subiu as escadas esbaforida...como se fosse perder o último ato válido da sua vida...o espetáculo já havia começado e ela tentou encontrar um lugar adequado para a viagem. A verdade é que no escuro...e com músicas e poesias...sua cabeça deu um giro completo...das cenas da última semana...da insegurança...da tentativa de acreditar nas palavras e gestos irreais. Quando voltou a si...já no final...se deu conta que precisará retornar na próxima sessão...para fazer de si...a imagem e semelhança de alguém que sabe aonde ir.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Scott G. Brooks

Conjunção


Não vou dizer mais uma vez o quanto foi difícil. O importante é que acabou.
E agora, que o próximo seja novo. Novo na cabeça, novo no coração, novo nas intenções, novo nas ações.
Que seja alegre como um dia de sol e praia.
Que seja tranquilo como o silêncio.
Que seja esperançoso como uma música.
Que seja belo como fogos de artifício.
E que seja feliz, muito feliz.
Texto do blog onde a dor não tem razão
Imagem do blog coisas da doris

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Fratura exposta




Era demais, como nunca talvez tivesse sido. Olhares que se encontravam, mãos que retorciam uma nas outras procurando calejar as linhas cansadas da vida, acabar logo com aquilo. Ela ficou um tempo olhando a noite que abraçava a cidade num céu rosa alaranjado e quente, quase amável… Para se tornar em seguida negro e cheio de promessas vãs. Pensou, amou com o peito que doía aquela história que tinha acabado. E ficou com medo de amar a próxima. Olhou de novo para ele, do outro lado da sala, que arrumava um disco apropriado para ela. Ela pensou: Ella. Ele pôs Louis. E o pavor tomou conta de cada célula que tremia de frio e pedia um abraço forte que a envolvesse até o ar acabar e o mundo voltasse a ser o que era antes, tóxico e morto, prestes a criar vida novamente. Era mais fácil dizer que gostava de Duke então. Mas isso só faria com que ele a quisesse mais ainda. E se ela batesse nele? Eles se amariam na fúria do outro. E se ela contasse sobre o outro? Ele nada diria e a beijaria, sua nuca ficaria arrepiada e ela ia sim se entregar, sem dó nem piedade de si mesma. Bastava dizer que odiava aquele quadro e ele o tiraria da parede para sempre. E se citasse que o amor era líquido e efêmero, ele a possuiria mais forte e intensamente do que nunca. Se ela pisasse no coração dele, miúdo e despreparado, ele jamais a deixaria. Se ela fosse embora, ele iria atrás.

Então ela disse: Eu te amo. E tudo acabou.

Texto: Luciana Minami
Imagem: Holly Clifton-Brown

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Trópico de Câncer


Se de vez em quando encontramos páginas que explodem, páginas que ferem e queimam, que arrancam gemidos, lágrimas e pragas, sabemos que elas provêm de um homem com as costas na parede, um homem cuja única defesa restante são suas palavras, e suas palavras são sempre mais fortes que o peso mentiroso e esmagador do mundo, mais fortes que todos os ecúleos e rodas que os covardes inventam para esmagar o milagre da personalidade. Se algum homem ousasse traduzir tudo quanto há em seu coração, expressar o que é realmente sua experiência, o que é realmente sua verdade, penso que o mundo se despedaçaria, que se reduziria a pedacinhos e nenhum deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia jamais reunir novamente os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que entraram na formação do mundo.
Texto: Henry Miller
Imagem: Emily Martin

Fragmento


“(…) eu me exalto e me estimulo quando renuncio ao enorme peso de uma lógica implacável. Obrigo-me a girar leve como um pião para aplacar a lucidez e incitar o delírio, para escutar minha intuição.”
Texto: Anaïs Nin
Imagem: Desconheço a autoria

Do Desejo


Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna das palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilado de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria redivida, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fonte do meu primeiro grito.

Texto: Hilda Hilst
Imagem: Wang ZhiJie

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Dona de si



Cândida revelou-se no dia da formatura. Ela, que sempre fora a mais contida entre as acadêmicas...ousou inovar. Havia um anseio de que fosse formal e regular como em todos os anos de faculdade...mais eis que ela estava indomável. Planejou os pormenores do seu ato final...manteve-se instável...com ligações covalentes...pareceu-se mais assemelhada ao césio 137...tamanha a destruição que causou na mesma noite...a verdade é que os servos comuns...os bem domados...os que aceitam...os que baixam a cabeça...escondem dentro de si furacões com potência destruidora compatível às bombas de Hiroshima e Nagasaki...e essa energia nuclear compactada em micro cápsulas...tende à implosão/explosão...e tudo que antes era certo...tornar-se-á errado e do avesso...tal qual uma profecia...tal qual uma insanidade...tal uma lucidez.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Lorie Arley

Coisa mais fofolete


Como não ceder quando se pede para jurar juradinho?

Insight


Se essa rua se essa rua fosse minha...eu mandava, eu mandava ladrilhar...com pedrinhas com pedrinhas de brilhante...só pro meu, só pro meu amor passar...

Música: desconheço a autoria
Imagem: Graciela Rodo

Ouvindo essa


Comme Des Enfants
Alors tu vois, comme tout se mêle
Et du coeur à tes lèvres, je deviens un casse-tête
Ton rire me crie, de te lâcher
Avant de perdre prise, et d'abandonner
Car je ne t'en demanderai jamais autant
Déjà que tu me traites, comme un grand enfant
Et nous n'avons plus rien à risquer
A part nos vies qu'on laisse de coté
Et mais il m'aime encore, et moi je t'aime un peu plus fort
Mais il m'aime encore, et moi je t'aime un peu plus fort
-
C'en est assez de ces dédoublements
C'est plus dure à faire, qu'autrement
Car sans rire c'est plus facile de rêver
A ce qu'on ne pourra, jamais plus toucher
Et on se prend la main, comme des enfants
Le bonheur aux lèvres, un peu naïvement
Et on marche ensemble, d'un pas décidé
Alors que nos têtes nous crient de tout arrêter
Il m'aime encore, et toi tu t'aime un peu plus fort
Mais il m'aime encore, et moi je t'aime un peu plus fort
Et malgré ça, mais il m'aime encore, et moi je t'aime un peu plus fort
Mais il m'aime encore, et moi je t'aime un peu plus fort
-
Encore, et moi je t'aime un peu plus fort
Mais il m'aime encore, et moi je t'aime un peu plus fort

Malgré ça il m'aime encore, et moi je t'aime un peu plus fort
Mais il m'aime encore, et moi je t'aime un peu plus fort
Composição: Beatrice Martin
Imagem: Sara Holbert

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Let´s

Ouvindo esta


Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé...
Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol...
Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso...
O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos...
Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final! Sem final!
Sem final! Sem final!
Final...
Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final! Sem final!
Sem final! Sem final!
Final...
Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões...
Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões...
Valeu a pena
Valeu a pena
Sou pescador de ilusões
Valeu a pena
Valeu a pena
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões
Letra: O Rappa
Imagem: Raquel Díaz Reguera

Dos presentes


Certas vezes é difícil não rememorar. Chegastes de viagem...ou não...a verdade é que não sei. Havia algumas sacolas e presentes na sala. Havia uma mala. Havia uma orquídea na mesa próxima ao sofá. Havia a janela ...e os passarinhos na área aberta. Gostava de olhar através dela...aquele velho sentimento de liberdade que já te falei. Abrimos as sacolas: CD, roupas, um livro. O primeiro que te dei foi a mini caixinha de música...com uma velha canção dos Beatles...houve um certo descobrir para aprender a tocá-la...mas é assim...quando se pisa num chão de estrelas. Dos presentes que me deste...devolvi todos...porém esqueci do objeto de calçar...e toda vez que o vejo...lembro da gente...no mais profundo e superficial...no enganar-se ou não...naquela confusão. O dia do mal entendido...não houve...não foi real...foi dúvida...foi inteligente...foi dar o tempo necessário...para dizer o que há muito já era perceptível...o não pertencimento...a recusa...a má aceitação...mas hoje...ainda há a tua imagem...a mesma de um mês atrás...a mesma forte...e intensa sensação...dos 30 e poucos...dos trinta e tantos...do teu andar com a pasta na mão...dos tantos papéis que havia ali dentro...da minha vontade de correr pros teus braços...mas da minha certeza de que era inútil.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Wang ZhiJie

Vi hoje

Poema à boca fechada


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo."

Texto: José Saramago
Imagem: Emily Martin

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Praticando

Tenho que aprender isso

Das coisas como elas são


"Então, e como sempre, era só depois de desistir das coisas desejadas que elas aconteciam."
Texto: Clarice...sempre ela.
Imagem: Benjamim Lacombe

School


Clica aí e dá zoom

Vi hoje


Wonderful!

Ouvindo esta


All around me are familiar faces
Worn out places - worn out faces
Bright and early for their daily races
Going nowhere - going nowhere
And their tears are filling up their glasses
No expression - no expression
Hide my head I want to drown my sorrow
No tomorrow - no tomorrow

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very Mad World

Children waiting for the day they feel good
Happy Birthday - Happy Birthday
Made to feel the way that every child should
Sit and listen - sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me - no one knew me
Hello teacher tell me what's my lesson
Look right through me - look right through me
Letra: Tears For Fears
Imagem: Benjamim Lacombe

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Canção


canto
pra dizer que no meu coração
já não mais se agitam as ondas de uma paixão
ele não é mais abrigo de amores perdidos
é um lago mais tranqüilo
onde a dor não tem razão
nele a semente de um novo amor nasceu
livre de todo rancor, em flor se abriu
venho reabrir as janelas da vida
e cantar como jamais cantei
esta felicidade ainda
quem esperou, como eu, por um novo carinho
e viveu tão sozinho
tem que agradecer
quando consegue do peito tirar um espinho
é que a velha esperança
já não pode morrer
Letra: Paulinho da viola e Elton Medeiros
Imagem: Brett Manning

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Atualidades



Enquanto isso no Brasil...


Essa não dá pra ver


Amanhecer é um facho de luz no final da noite.
Anoitecer é a chegada do céu escuro salpicado de estrelas.
Amar é sentir-se tranquilo ao lado de alguém.
Apaixonar-se é igual a enlouquecer ou perder a razão.
Sentir é algo que nem todo mundo é capaz.
Pensar é ato interior que nem sempre dá para exteriorizar.
Estereótipo é algo que a maioria das vezes não condiz com a realidade.
Viver( no sentido animal) inclui indispensavelmente respirar.
Respirar é fisiológico, mas às vezes significa um tempo para si.
Vivemos sob o ponto de vista da nossa miopia e talvez nem mesmo usando óculos consigamos perceber o que não se expressa, o que não se vê, o que não se toca...o que simplesmente se sente...
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Raquel Díaz Reguera

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Escotomas




Eu sei porque já vivi isto...mas lá no fundo penso que poderia ter feito tudo diferente e penso que o resultado seria igualmente diferente.Ás vezes confabulo com meus botões que de nada adiantariam minhas frágeis tentativas...seriam em vão. Ás vezes sonho com os primeiros dias...ás vezes adormeço pensando nisso. São flashs...algo como os escotomas visuais comuns nas enxaquecas...micro pontos luminosos a pulsar diante dos meu olhos mesmo que fechados. Permaneço inerte...atada a fios de ouro, prata, bronze...ou algodão. Não dá pra flutuar...não dá pra levantar...alçar vôo, nem pensar. Não posso fazer qualquer movimento pois me doem os ossos...Evito pensar...pois isso provoca a disseminação de estímulos nervosos em destino ao meu coração...e isso é mal. Chego à conclusão de que coração deveria ser feito de muros, invólucros, protetores, câmeras, circuito interno, cerca elétrica...de modo à evitar a invasão. Esta, quando efetuada...pode produzir danos irreversíveis....já senti isso...e não direi que jamais quero sentir, pois que apesar da turbulência...a sensação do estar apaixonada...é que nem sorriso de criança.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Raquel Díaz Reguera

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Metáfora


Cristina subiu no muro...se equilibrou, mas sem efeito...de lá caiu. "Tadinha da Cristina" todo mundo falou...mas ela pequenina e acostumada com os tombos da vida...levantou...olhou para os lados...enxugou sua pequena lágrima e seguiu em frente...
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Holly Clifton Brown

Me queira bem, meu amor


Há quem diga que bêbados são sábios ou inconvenientes. Inconvenientes são mesmo, é fato. Sábios, só até quando o álcool permite. Algumas horas depois daquele gole, a gente parece que sabe de tudo, tem a verdade absoluta. Eu estava um pouco assim hoje. Eu estou um pouco assim.

Cada gole, uma lembrança boa de você, uma vontade imensa de cuidar de mim, de ser melhor para mim, para os outros. Vontade de continuar a sentir encantamento, dádiva de algo que não se repete. Uma pessoa, outra pessoa: Deus em algum lugar.

Alguns drinques, uma noite sem grandes expectativas. Acontecimentos banais.

Espero que você não esteja detestando tudo isso: é boa a sensação de não sentir vergonha de nada que eu seja capaz de sentir.

Acabo de ver coisas, ouvir coisas. No filme, há um princípio da coincidência regendo tudo. Um princípio que explica as precariedades da vida. Não sei se há coincidências, acredito que há sol até nas noites.

A vida segue, o belo é que nós não somos descartáveis. Há alguém muito perto do outro, que olha, que observa. Faz sorrir. E há alguém que está, mesmo sem ser, como se não precisasse, imperceptível.

Tenho um jeito meio desajeitado de dizer as coisas, meio prolixo, meio cheio de curvas, um jeito tão sem precisão que me faz ter vergonha de fazê-lo. Não: decidi não sentir vergonha de nada que eu seja capaz de sentir.

E essa madrugada? Eu, sinceramente, acho que o tempo vai fazer eu me esquecer de você e você se esquecer de mim. Por isso, escrevi isso. Para deixar registrado.

Eu me sinto melhor com tua presença. Aí. Aqui. Acima das nossas cabeças.

Fique feliz, fique bem feliz, fique claro. Queira ser feliz. Te envio as melhores vibrações.

Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas, que seja bom o que vier: para mim, para você.

Te escrevo isso por absoluta necessidade de sinceridade. Hoje tem noite e amanhã tem sol.

- Me queira bem.

Texto: Thiago Soares
Imagem: Benjamim Lacombe

Do ficar atento


"Se você acredita em amor a primeira vista, nunca pare de olhar."
Frase do filme CLOSER
Imagem: Benjamim Lacombe

Coisas que não devem ser ditas


Eu não queria te falar isso tudo, mas a verdade é que meu coração parou de bater no exato minuto em que te disse adeus. Eu não queria te falar, mas vou ousar dizer em alto e bom som que meu caminho ganhou estrada sinuosa desde então. Eu mesma não queria sonhar nem levantar vôo, mas quando vi era quase que passarinho quando aprende a voar e que por ser a primeira vez quer voar alto e bonito e livre...coisa que é digna de uma primeira vez. Eu não queria que soubesses que me fez sorrir e chorar em igual intensidade e que ainda te busco em pequenos cantos da minha memória. Eu só queria que soubesses que não fostes a página virada ou o leite derramado...fostes marca em fogo tatuada em mim.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Benjamim Lacombe

A garota com um girassol nos cabelos curte


Todo dia, a menina corria o quintal, procurando um arco-íris. Corria olhando para o alto, tropeçava e caía. Toda vez que se machucava, vinha chorando uma cor. Um dia, chorou o anil até esvaziá-lo dos olhos. Depois, chorou laranja, chorou vermelho e azul. Chorou verde. Violeta. Amarelo e até transparente! Chorou todas as cores que tinha, todas as cores de dentro. Então, abriu os olhos, e nem o arco-íris ela viu. Não viu flores e borboletas. Não viu árvores e passarinhos. Pensando que era ainda noite, deitou-se na cama e dormiu. Pensando que era tudo escuro, nem levantar-se ela quis! Ficou dormindo cinzenta, por dias e noites sem fim… Foi quando um sonho, tão colorido, derramou-se dentro dela! Tingiu o travesseiro e a fronha, o lençol e o pijaminha. Tingiu a meia e o quarto. Tingiu as casas e os ninhos! A menina abriu a janela e viu que hoje não tinha arco-íris. Mas tinha o desenho das nuvens. Tinha as flores e um passarinho.
Texto: Rita Apoena
Imagem: tirei daqui http://almatepida.wordpress.com

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Assisti hoje


Não ganharia um Oscar...nem um Globo de ouro...mas é fofo demais.

Ouvindo essa


No Surprises
A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal

You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us
I'll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent silence

This is my final fit, my final bellyache with

No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises please

Such a pretty house and such a pretty garden

No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises (let me out of here)
Composição: Radiohead

Oneness




Neste último domingo fui conferir a exposição de Mariko Mori em cartaz no CCBB Brasília. A exposição mistura espiritualidade com influências budistas, tecnologia e fotografia. Há duas experiências sensoriais ou interativas. Como estava sozinha, tive a sorte de conseguir uma senha que havia sobrado e rapidinho consegui interagir com 6 figuras extraterrestres com corações pulsáteis e luz nos olhos, que só se completam quando seis pessoas em conjunto tocam o ponto certo. Depois fui tentar entrar na WAVE UFO...voltei para a fila e fiquei batendo papo com outras pessoas, ou seja, também interagindo...havia até uma senhorinha de 95 anos...e também cachorrinhos, famílias, crianças...clima legal para um domingo de folga e de sol...mas eis que desta vez não tive a mesma sorte...entravam 6 pessoas a cada 30 minutos e pelas minhas contas teria que esperar umas duas horas para interagir na cápsula futurista. Sai com a exposição portanto pela metade, mas vou voltar durante a semana que é mais vaziozinho. Deixo a dica aqui, pois acho que o CCBB proporciona pra gente momentos muitas vezes imperdíveis...com exposições maravilhosas e o que é melhor: cultura de qualidade e gratuita.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ouvindo esta


Zombie
Another head hangs lowly
Child is slowly taken
And the violence caused such silence
Who are we mistaken?

But you see, it's not me, it's not my family
In your head, in your head they are fighting
With their tanks and their bombs
And their bones and their guns
In your head, in your head, they are crying...

In your head, in your head
Zombie, zombie, zombie hey, hey
What's in your head? In your head
Zombie, zombie, zombie?
Hey, hey, hey, oh, dou, dou, dou, dou, dou...

Another mother's breaking
Heart is taking over
When the violence causes silence
We must be mistaken

It's the same old theme since nineteen-sixteen
In your head, in your head they're still fighting
With their tanks and their bombs
And their bones and their guns
In your head, in your head, they are dying...

In your head, in your head
Zombie, zombie, zombie
Hey, hey. What's in your head
In your head
Zombie, zombie, zombie?
Hey, hey, hey, oh, oh, oh
Composição: Dolores O'Riordan

Daquilo que é moda


O fim do moletom


– Lá é frio – disse minha mulher –, como você vai correr?
Estávamos indo para Nova York, em lua de mel. Segundo a previsão, faria entre zero e cinco graus. Eu nunca tinha corrido àquela temperatura.

– De moletom, ué.

– Moletom? Calça e casaco de moletom?

– Aham.

Houve então um silêncio, durante o qual fiquei pensando, feliz, no quanto meu amor se preocupava comigo. Só quando abriu um sorriso sarcástico e disse:

– Sei. Tipo o Rocky Balboa, subindo aquelas escadas? –, e deu uns soquinhos no ar, percebi que sua preocupação não era com meu bem-estar térmico, mas com a vergonha que passaria ao sair do hotel ao lado do marido em seu traje abrigo-completo. Revoltei-me:

– Escuta, moletom é pra isso! Como é que você acha que eles correm lá, no frio?!

Nos quinze minutos seguintes, ouvi uma pequena aula sobre a evolução das fibras sintéticas e a tecnologia esportiva no século XXI. Segundo minha mulher, o moletom estava à beira da extinção e os “abrigos” sobreviventes eram mais raros do que os mico-leões dourados.

Fiquei triste. Envolto nesse morno e flexível material, enfrentei boa parte de meus momentos sobre a Terra – os primeiros, os mais difíceis. Na infância, criava um escarcéu toda vez que minha mãe queria me vestir calças jeans, camisas ou malhas de lã. Para que?! Aquelas roupas apertavam, impediam o movimento, pinicavam – sem contar a ameça do zíper, pequena guilhotina sempre à espreita.

Lá pelo ginásio, os mais descolados foram trocando os moletons pelos jeans. Eu demorei para fazer a transição. Via, em minha insistência nas calças vermelhas, azuis, verdes e amarelas – com couro no joelho –, uma atitude de resistência contra a babaquice desconfortável e misteriosa chamada adolescência. Como se dissesse: “traiam vocês suas convicções em nome do status social! Eu permanecerei fiel às raízes, flexível e quentinho!”.

Só beirando a oitava série fui me render, ao perceber que, se algum dia pretendia despir-me diante de uma mulher, seria preciso, antes de mais nada, vestir uma calça jeans. Desde então, o moletom virou a roupa de casa, o pijama de inverno. E quando eu teria a chance de usá-lo novamente na rua, para fazer um esporte, minha mulher vem me dizer que já era?

Não lhe dei ouvidos. Pus meu conjunto na mala e parti pra América do Norte. Logo no primeiro dia, vesti o famigerado e fui correr no Central Park. De fato, muitos esportistas vestiam essas microfibras high-tech, mas para meu alívio avistei, lá e cá, corredores como eu, vindos diretamente do século XX, em seus velhos e bons “abrigos”.

Voltei da viagem tranquilo. Ao que parece, micos leões e humanos de moletom ainda poderão ser vistos por mais alguns anos sobre a face da Terra. Importante, agora, é trabalhar a relação, seriamente abalada por meu visual Rocky Balboa. Tudo bem. Nada que um bom jantar não resolva: de camisa branca, sapato preto e calça social, como convêm.

Texto: Antonio Prata
Imagem: Achei aqui: http://temumquadrado.wordpress.com/2008/10/01/moleton-de-star-wars/

No ar de novo com o sorriso do gato da Alice


Hoje ela saiu de casa no final da tarde, entrou no carro e deu a partida com a pressa habitual. Antes de sair havia se vestido em preto e branco (nada mais clássico). Ao chegar ao destino...não foi preciso entregar a chave ao manobrista...havia uma única vaga...estacionou ali. Desceu do carro...entrou na sala...havia o vídeo...que mostrava em narrativa o quanto se pode reverter radicalmente o caminho previamente traçado...o que ela não sabe ao certo é o que poderia mudar. Com o passar dos dias o filme se repetiu...e quando o via só conseguia sorrir. Sorriu...e sorriu...um sorriso bobo e com cara de paisagem...mas aquele sorriso...ele...ele sim era só dela.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Desconheço a autoria