segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Daquilo que é moda


O fim do moletom


– Lá é frio – disse minha mulher –, como você vai correr?
Estávamos indo para Nova York, em lua de mel. Segundo a previsão, faria entre zero e cinco graus. Eu nunca tinha corrido àquela temperatura.

– De moletom, ué.

– Moletom? Calça e casaco de moletom?

– Aham.

Houve então um silêncio, durante o qual fiquei pensando, feliz, no quanto meu amor se preocupava comigo. Só quando abriu um sorriso sarcástico e disse:

– Sei. Tipo o Rocky Balboa, subindo aquelas escadas? –, e deu uns soquinhos no ar, percebi que sua preocupação não era com meu bem-estar térmico, mas com a vergonha que passaria ao sair do hotel ao lado do marido em seu traje abrigo-completo. Revoltei-me:

– Escuta, moletom é pra isso! Como é que você acha que eles correm lá, no frio?!

Nos quinze minutos seguintes, ouvi uma pequena aula sobre a evolução das fibras sintéticas e a tecnologia esportiva no século XXI. Segundo minha mulher, o moletom estava à beira da extinção e os “abrigos” sobreviventes eram mais raros do que os mico-leões dourados.

Fiquei triste. Envolto nesse morno e flexível material, enfrentei boa parte de meus momentos sobre a Terra – os primeiros, os mais difíceis. Na infância, criava um escarcéu toda vez que minha mãe queria me vestir calças jeans, camisas ou malhas de lã. Para que?! Aquelas roupas apertavam, impediam o movimento, pinicavam – sem contar a ameça do zíper, pequena guilhotina sempre à espreita.

Lá pelo ginásio, os mais descolados foram trocando os moletons pelos jeans. Eu demorei para fazer a transição. Via, em minha insistência nas calças vermelhas, azuis, verdes e amarelas – com couro no joelho –, uma atitude de resistência contra a babaquice desconfortável e misteriosa chamada adolescência. Como se dissesse: “traiam vocês suas convicções em nome do status social! Eu permanecerei fiel às raízes, flexível e quentinho!”.

Só beirando a oitava série fui me render, ao perceber que, se algum dia pretendia despir-me diante de uma mulher, seria preciso, antes de mais nada, vestir uma calça jeans. Desde então, o moletom virou a roupa de casa, o pijama de inverno. E quando eu teria a chance de usá-lo novamente na rua, para fazer um esporte, minha mulher vem me dizer que já era?

Não lhe dei ouvidos. Pus meu conjunto na mala e parti pra América do Norte. Logo no primeiro dia, vesti o famigerado e fui correr no Central Park. De fato, muitos esportistas vestiam essas microfibras high-tech, mas para meu alívio avistei, lá e cá, corredores como eu, vindos diretamente do século XX, em seus velhos e bons “abrigos”.

Voltei da viagem tranquilo. Ao que parece, micos leões e humanos de moletom ainda poderão ser vistos por mais alguns anos sobre a face da Terra. Importante, agora, é trabalhar a relação, seriamente abalada por meu visual Rocky Balboa. Tudo bem. Nada que um bom jantar não resolva: de camisa branca, sapato preto e calça social, como convêm.

Texto: Antonio Prata
Imagem: Achei aqui: http://temumquadrado.wordpress.com/2008/10/01/moleton-de-star-wars/

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