sábado, 29 de outubro de 2011

Teus olhos



Teci teu rosto em minha memória
durante imensas noites insones.
Chamei teu nome em sonhos,
vã tentativa de tornar-te real.
Sofri imensamente o adeus que não houve.
Padeci diante dos meus fracassos.
Estavas distante demais.
Miragem...
impossível te tocar.
Tornei-te um objeto inalcansável.
O nunca me parece tão longe...
será difícil te esquecer.
É tão real a solidão
e tão triste deixar de te amar
sabendo que tudo não passou de uma ilusão.

Texto: Cláudia Marcsak
Imagem: Masha Sardari

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A garota, o teclado e o girassol


A menina do outro lado da cidade tem palavras bem mais contundentes do que as minhas.
Eu tenho bem mais idade que ela.
Ela fala do mesmo que eu.
Ás vezes ela pragueja contra a humanidade.
Ela é só uma menina...uma menina crescida...quase ou já mulher.
Só que o amadurecimento precoce também gera dor...e tira a leveza.
Ela tem olhos grandes e amendoados e a face borrada de rímel barato.
Ela gosta de cappuccino...e tem um gato angorá...
Ela que foi quase filha, quase amiga, quase amante...
É ela que sente falta do seu Ringo Star...
É ela que tem lâminas nas mãos...
É ela que em súplicas abafadas diz que não te quer...
Eu aqui do outro lado da cidade concreto...sinto como ela...
Só que ela é lâmina que corta...e eu colo que afaga.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal
Falta de nitidez: Nokia E71

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Meu pão


Escrever em terceira pessoa...de forma dissimulada...parecia fugir do óbvio.
Inventava tantas personagens quantas fosse capaz.
Quando passava por aqueles caminhos ela lembrava dele...
É verdade que lá nunca estiveram...
E ela só lembra que sua alma inventiva e aventureira não gosta do certo...
O certo é falho e desintegra no ar...
O errado ganha prêmios e louros...
Ela pequena, sensível e sonhadora continuou plantando as sementes...
Todo dia...olhava pro céu...e fazia sol...
Todo dia olhava pro chão e esperava que criasse raiz...
Não cansou...nem entendeu...
Também não aceitou...
Apenas deu um passo atrás do outro...
E quando lhe falavam das dores, ela sentia...
E por sentir evitava falar...
Falar significava consentir...coisa que ela se recusava terminantemente...
E então pensou com seu excesso de imaginação, jogou as palavras ao vento... sorriu seu sorriso sem graça...e andou em desalinho, pois que sem ele o andar é sempre assim.


Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Joe Bonomo

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

De manhã




Nunca me esquecerei
do que não houve entre nós.
Da tua ausência
enchendo de espera
tomando de desespero
os restos do nada.
Jamais apagarei da memória
o que não aconteceu,
o que eu tanto queria,
o que desejei com força
e o destino cuidou de evitar.
A lembrança ainda é úmida,
a saudade beija a razão.
É recente a brasa,
ardente e perene,
dos sonhos em vão
de todo um momento
que não passou.

Texto: Cláudia Marczak
Imagem: Ann Mei

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Felicidade sim


Felicidade?

Disse o mais tolo: "Felicidade não existe."
O intelectual: "Não no sentido lato."
O empresário: "Desde que haja lucro."
O operário: "Sem emprego, nem pensar!"
O cientista: "Ainda será descoberta."
O místico: "Está escrito nas estrelas."
O político: "Poder"
A igreja: "Sem tristeza? Impossível.... (Amém)"

O poeta riu de todos,
E por alguns minutos...
Foi feliz!

O Teatro Mágico
Imagem: Arquivo pessoal

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O que vale


“De tudo, talvez, permaneça
o que significa.
O que não interessa.
De tudo, quem sabe, fique
aquilo que passa.
Um gerânio de aflição.
Um gosto de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapatos.
De tudo, talvez, restem
bêbadas anotações no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca na rádio.”
Texto: Marcelo Montenegro
Imagem: achei aqui maniadeguria.com

Cem


A criança tem cem linguagens
Cem mãos cem pensamentos
Cem maneiras de pensar
De brincar e de falar
Cem sempre cem
Maneiras de ouvir
De surpreender de amar
Cem alegrias para cantar e perceber
Cem mundos para descobrir
Cem mundos para inventar
Cem mundos para sonhar.
A criança tem
Cem linguagens
(e mais cem, cem, cem)
Mas roubam-lhe noventa e nove
Separam-lhe a cabeça do corpo
Dizem-lhe:
Para pensar sem mãos, para ouvir sem falar
Para compreender sem alegria
Para amar e para se admirar só no Natal e na Páscoa.
Dizem-lhe:
Para descobrir o mundo que já existe.
E de cem roubam-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe:
Que o jogo e o trabalho, a realidade e a fantasia
A ciência e a imaginação
O céu e a terra, a razão e o sonho
São coisas que não estão bem juntas
Ou seja, dizem-lhe que os cem não existem.
E a criança por sua vez repete: os cem existem!

Texto: Loris Malaguzzi
Imagem: Gabis

domingo, 16 de outubro de 2011

João e Maria


Eles eram nomes fictícios para personagens surreais...
Sentaram à mesa, pediram dois cafés e se perderam entre palavras que não vinham, entre papéis impressos, entre uma pasta e dois livros sem sentido.
Como não pudesse falar nem engolir o choro, ela pediu outro lugar...na mesma hora...
Houve uma praça, frases feitas, palavras metodicamente pensadas em um enredo bem escrito, um abraço, muitas lágrimas, uma camisa branca, uma porta que se fechou, um caminhar sem olhar pra trás...e havia Maria que amava João e que não servia nem para quadrilha de escritor renomado.

"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história"


Texto: Wandréa Marcinoni
Poesia: Carlos Drummond de Andrade
Imagem: Stella Mccartney

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Meu disco voador



O que você pensa não é o que eu vejo...
Suas palavras codificadas não são o que eu ouço...
Podia te chamar e te falar exatamente o que eu sinto...
Mas também expresso em códigos que pra você não dizem nada.
Quando há saudade...ela é minha.
Sabe as imagens?
Também são minhas...assim como as músicas de nós dois.
Assim como nossos passos.
Se eu estivesse outra vez na tua casa...
Confirmaria o cheiro de terra molhada lá fora.
Deve ter canto de cigarras...
Deve ter um céu quase vermelho...
E o céu me faz lembrar da tarde...do café...das palavras...do que vale mais...
Ou talvez de mim...
Ou de mim e você...
Ou do que sou sem você.
Texto: Wandréa Marcinoni
Memória: Wandréa Marcinoni
Visão turva: Wandréa Marcinoni
Imagem: Tatiana Deriy

Sem palavras


sábado, 8 de outubro de 2011

A garota e o girassol


O ditatorial certame, o enxame, o farto passado, a falta e a ausência...
Tudo que latejava e contorcia...
Tudo o que era medular...
O que fazia pulsar mais rápido...
O que enchia de lágrimas...
Ela não sabia...ou era eu...
Eu que inexisto sem ela...
Ela que tem personalidade própria e que dá passos sem mim...
Ela é que é flor e que gira em torno do sol...
É fagulha...
Ela sou eu...com mais palavras e mais detalhes...
Eu sou ela quando engulo o que penso...
Somos garotas...exaltamos o amarelo, choramos lágrimas tortas...
Andamos em ruas com pessoas e vazios...
Costuramos situações de maneiras diferentes...
Oramos por amor...
É como andar na chuva olhando um arco-íris...
É como tecer bordados em papel de seda...
É como entrar no mar ao final da tarde...
É ser e existir em duas pessoas...
Só eu sei quem ela é...
Só ela me conhece...
E para dar um tom de crônica, escrevemos em conjunto.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Fred Calleri

Infame

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Linha torta


"E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá,
louco e longo e não o outro,
encurtoso."
Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Valéria Docampo

Fragmento


Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, morte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha.
E exige posse e pranto, sal e adeus.
Texto: Hilda Hilst
Imagem: Arquivo pessoal-Chapada dos veadeiros

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Minha alma


Ela ouviu uma única frase.
As outras palavras flutuavam no ar...
Como a planta de plástico que enfeitava a mesa...
Como a xícara de café...
Como os pães de queijo de tamanho médio que ela dividiu com ele...
Como a sensação de uma tarde de domingo...
Como o caminhar até o estacionamento...
Como o telefone e o livro esquecidos...
Como os carros estacionados...
Como a esperança perdida...
O céu acima...
O espaço aberto do Mall...
O asfalto...
O quarto...
A casa...
A falta...
Ele é nuvem...é chama...é ausência...é fase...
Ele é fato e procura...
Ele é a presença que falta...
A luz que ofusca...
Ele é a fala dela...
Sua voz em outra língua...
Ele é a falta de sentido...
Ele é.
Somente isso.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Brooke Shaden

Trechos encontrados


É claro que eu te quis,
mais do que você a mim..
Que filme mais antigo.. que
novelinha mais sem fim.. que texto ruim...
Imagem: Maria Mola
Composição: Lulu Santos

domingo, 2 de outubro de 2011

Votos



Gosto do seus traços, das suas linhas tortas, das suas músicas sem ritmo, da falta de repertório, da sua ausência em dias de festa, da sua presença em dias comuns, da sua inteligência, do fardo que carregas, do seu instinto, do modo desafinado com o qual você canta, do jeito como tira a camisa, da sua maneira desajeitada e infantil, dos seus ares de imperador, da sua fadiga com pouco serviço, do modo de dizer que me ama. Gosto da saudade e da presença, da falta e do contato, do seu cheiro e do seu jeito, do seu modo de ser só meu, gosto dos seus defeitos que avivam minha memória, gosto da lembrança dos nossos poucos dias...gosto de sentir...que fui e sou feliz...porque você é meu...e que o ser meu é algo eterno...embora só eu acredite nisto.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem:Evgenija Gapchinskaja