quarta-feira, 23 de maio de 2012

Qualquer hora


Todo dia antes de dormir
E antes de acordar
E no intervalo entre um piscar de olhos
E quase em cima da hora
Ou quando crio algo entre um instante e outro
Ou quando faz um dia de sol
Ou ainda quando é noite
Qualquer dia, em qualquer hora, em qualquer lugar
Só pra estar com você
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Ann Mei

domingo, 20 de maio de 2012

Enquanto isso no reino de Avilan


Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.

Hoje na leitura do Correio Brasiliense do domingo me deparo com a seguinte notícia: Filho de Tadeu Filipelli irá se casar em julho em castelo italiano em cerimônia para um Petit Comité com toda pompa e circunstância. E aí eu me pergunto: como pode ser, num país com tantos pobres e miseráveis, com tanta gente trabalhadora, com tanta gente que sua a camisa pra ganhar o pão de cada dia, pessoas que fazem parte de cargos públicos e que enchem a boca para propagar benfeitorias para a população esbanjarem tanto? Pode até ser que o enriquecimento dos benditos seja por esforço próprio, ou herança familiar, embora eu duvide, uma vez que seu passado é de servidor público do GDF, mas mesmo que fosse, ainda assim acho uma afronta a quem realmente leva o Brasil nas costas.



Texto: Wandréa Marcinoni
Texto em negrito: Abraham Lincoln

Pra descontrair

Os mares hoje são outros

Ouvindo agora




At night i trip without you
And hope i don't wake up
This waking up without you
It's like drinking from an empty cup
Imagem: Arquivo pessoal...Um Ipê amarelo...próximo ao inexistente VLT

sábado, 19 de maio de 2012

Interrompida


A fonte das idéias paralisa.
Imagem: Arquivo pessoal

A substância do nada


No dia em que chegou àquela casa, era uma noite após A noite.
Naquele dia não havia auroras e luzes no horizonte.
Havia a força do pensamento e dos sonhos que ela cultivava em sua horta caseira.
Parecia haver bromélias, acácias, pétalas de rosas dispersas nos pequenos ambientes e suas favoritas que eram os girassóis.
Os girassóis, esses sim, mantinham acesas suas esperanças.
Era como se cada semente contida na flor do sol fosse capaz de germinar em castelos com paredes de vidro, com vista pra campos infindáveis do verde que ela queria ver.
Nunca havia pensado no frio e em noites de inverno. Achava que com as plantas, sempre faria sol e tudo poderia nascer.
Passou uns dias em silêncio com suas roupas atadas à uma mala cinza na pequena varanda da casa.
Quando queria buscar por algo familiar, remexia sem receios o seu pequeno terreno e suas únicas posses.
À família ela preferia manter a certeza de sua felicidade.
Fazia esforços contínuos.
Achava que conseguia.
Vivia na eterna labuta entre os muros e arremates.
Qualquer pequeno fragmento que restasse de seus pequenos consertos, ela varria para debaixo do tapete.
Telhado, piso, paredes, varanda, quartos, cozinha, redoma, cristal, inexistência, submissão, fantasia, eternidade, fumaça, ternura, sacos plásticos, inseticidas, névoa, a noite e o dia, todos em um só, todos só pra ela, tudo só pra ela, nada só pra ela, nada.
Texto: Wandréa Marcinoni

Ouvindo agora

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Memórias


Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.

Texto: Machado de Assis
Imagem: Melina Souza

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A máquina do tempo


"Desejo a máquina do tempo
para que não haja o havido
e eu recomece misericordiosamente."
Texto: Adélia Prado
Imagem: Melina Souza

Ouvindo agora


Das minhas palavras tortas


Falo por palavras tortas. Conto minha vida que não entendi.(...) Ao
doido doideras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel
como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me
ajuda. Assim é como conto.
Texto: João Guimarães Rosa
Imagem: Arquivo pessoal

Já nasceu o sol



"A manhã se faz de flores."
Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Amanda Cass

Da beleza da vida



Que este mundo pode ser que não preste, mas é tão bom de ver!

Mario Quintana

Na poeira


Na poeira, no pó, no vento, na estrada. O tempo que caminho não é o mesmo tempo do meu pensamento. Ele é viajante, não se assenta em qualquer lugar. Ele é rebelde, a obediência não é sua sina. O fato de me perder com ele de tempos em tempos já tomou ares de rotina. Meus pés nunca se firmaram no chão e sempre vivi naquele mundo paralelo no qual as imagens são borradas e as lembranças têm perfume. Devo concordar portanto que mantenho-me imutável apesar das inúmeras lições da vida.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

Na ponta dos dedos


Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto… Até que amanheça.
Texto: Rita Apoena
Imagem: Arquivo pessoal

domingo, 13 de maio de 2012

Eu super indico esse libro

Do amor


“Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.”

Texto: Carlos Drummond de Andrade
Imagem: Arquivo pessoal

Ouvindo agora



O sol


E eis que mesmo que eu não entenda, algo aconteceu.
Imagem: Eugenia Gapchinska

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Dos dias


E da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei…
O amor é quando a gente mora um no outro.

Texto: Mário Quintana
Imagem: Nirrimi

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O amor é desafinado, mas é lindo

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Amo Yann Tiersen

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Instruções para desvendar histórias



Coloque o ipod no ouvido. Sente-se num banco da sala de embarque do aeroporto de Brasília, interrompa a leitura do seu livro e observe as pessoas passando. São muitas. Todas têm um destino, uma pressa, uma ansiedade, uma alegria e uma dor. Se o que tocar no seu ipod for dramático, você verá as dores delas. De todas as cores, da roxa e da rosada. Se a música for em francês e houver um violino, você verá estampadas em seus rostos diversas saudades. Mas se a próxima faixa for alegre, será divertido observar. Verá que todo mundo é um pouco esquisito e também um pouco familiar.
Texto: Cristiana Guerra

Cris Guerra


É dela um dos meus livros favoritos. É dela uma criatividade sem fim.
Foi por meio do seu site que eu apadrinhei uma criança à cerca de um ano.
O site tá uma delícia de se ver. É esse aqui: http://www.hojevouassim.com.br
Vai lá e curte. Faça sua vida assim também. Super colorida e super alto astral

Você acredita?


Achei aqui: http://missedconnectionsny.blogspot.com.br/

Ouvindo essa

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Costumes


Eu nem sei mais dar os passos.
Não sei mais caminhar.
Eu não sei mais como se faz pra não tropeçar.
Acho que tudo terminou, mas não foi assim.
Tudo terminou como um fardo, mas como sentimento parece que aviva a memória a cada novo contato.
Eu tinha esse jeito de não dizer nada.
Eu procurava até aceitar o que não se aceita.
Eu não torcia o nariz.
Eu não dizia um "ai".
Meu dia a dia era traçado entre um ir e vir de coisas.
Um dia fui à feira e comprei uma pequena placa azul com uma casa desenhada em cores azul e branca.
A casa dos sonhos na porta do meu lar.
Dizia: " meu recanto de paz".
Um desejo apenas.
Uma busca enfim pelo meu descanso.
Só que ele nunca vinha.
Só tropeço.
Só trapaça.
Só desilusão.
Nada do recanto.
Apenas sonhos desfeitos como cama mal arrumada.
Quando ele partiu, dei de chorar por noites sem fim.
Quando ele partiu, de verdade, dei de sorrir.
E hoje, sorrir é a a melhor parte da vida.
Sorrir é saber de tudo de mim.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Loretta Lux

terça-feira, 8 de maio de 2012

Homens Que São Como Lugares Mal Situados


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Texto: Daniel Faria

Do poetinha




"Penso que não tive escolha
Fui escolhido e gostei da escolha
Faço o que sonho
Faço o que gosto
Sou um pouco irresponsável
com os passarinhos, isto seja:
Sou livre
Amo a palavra"


Texto: Manoel de Barros
Imagem: Masha Sardari

Pro teu coração de louça


Coração quebrado tem cura:
A paz de não precisar mais aguardar
a perfeição que não existe.
Texto: Fernanda Young
Tirinha: Liniers
Clique na imagem para ampliar

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Vida longa


Eu, embora procure esconder em muitas ocasiões, sei perfeitamente o que se passou na sua cabeça.
Desde o primeiro encontro até a tarde daquele dia, eu sei.
Mas eis que a gente fazia planos e eis que a gente se perdeu no meio deles. Alternamos algumas voltas e sempre era você que dizia quando. Eu, com o mesmo pensamento de antes, achava que te ver era o melhor.
Era um sábado, fazia sol, adiei mil compromissos e ouvi nossa música no carro. O esforço valeu não pela falta de palavras, mas pelo excesso de sentimento. Você falou da vida longa, da ajuda, da familiaridade, da manutenção e de algumas coisas bobas que eu nem lembro mais.
Eu, que não esqueci disse um até breve. Este breve que nunca veio, porque você é assim: algo entre um instante e outro, algo entre o tempo/matéria, algo entre a ilusão e a realidade, algo entre mim e quem eu pensei que eu fosse.

Texto: Wandréa Marcinoni
Em tempos de calmaria
Em horas que a noite vem
No tempo de te esquecer

Da amizade



“No mundo de cá, as relações se dão na superfície. Eu fico sobre uma pedra no rio e, enquanto você estiver na outra, saudável, amoroso e alto-astral, nós nos amamos. Se você afundar, eu não mergulho para te dar a mão, eu pulo para outra pedra e começo outra relação superficial. Mas o que pode ser mais arrebatador nesse mundo do que o encontro entre duas pessoas? Para mim, reside aí todo o mistério da vida, a intenção mais genuína de um abraço. Encontrar alguém para encostar a ponta dos dedos no fundo do rio - é o máximo de encontro que pode existir. Encostar a ponta dos dedos no fundo do rio. E isso não é nada fácil, porque existem os dragões do abandono querendo, a todo instante, abocanhar os nossos braços e o nosso juízo. Mas se eu não atravessar isso agora, a minha escrita será uma grande mentira, as minhas histórias serão todas mentiras, o meu livrinho será uma grande mentira porque neles o que impera mais que tudo é a lealdade, feito um Sancho Pança atrás do seu louco Dom Quixote. É a certeza de existir um lugar, em algum canto do mundo, onde a gente é acolhido por um grande amigo. É por isso que eu tenho de ir. E porque eu não quero passar a minha existência pulando de pedra em pedra, tomando atalhos de relações humanas. Eu vou mergulhar com o meu amigo, ainda que eu tenha de ficar em silêncio, a cem metros de distância. Eu e o meu boneco de infância, porque no meu mundo a gente não abandona sequer os bonecos que foram nossos amigos um dia.”

Texto: Rita Apoena
Imagem:

domingo, 6 de maio de 2012

The reader


“O Leitor” é um filme sobre o amor em tempos sombrios. Na Alemanha dos anos 1950, Michael, um adolescente, vive um encontro com Hanna, uma mulher mais velha, e passa a ler para ela os livros que estuda na escola. De Homero a Tchekov, de Chardelos de Laclos às aventuras de Tintin, o amor nasce misturado à ficção. Essa “mentira que diz a verdade” é, em “O Leitor”, transmitida, na alternância das gerações, pelo ensino da literatura e seu cânone.

Diversamente da simples convenção, sua exemplaridade preserva, como um dom, “grandes obras”, aquelas capazes de comover e ensinar. Pois “que saberíamos do amor e do ódio, dos sentimentos éticos e, em geral, de tudo o que chamamos de si mesmo”, pergunta Paul Ricoeur, “se isso tudo não tivesse passado à linguagem, articulado pela literatura?”

Grandes obras e grandes autores são aqueles sem os quais o mundo seria incompleto.

Sem despedir-se, Hanna subitamente abandona a cidade; mais tarde, Michael, agora estudante de direito, iria acompanhar os processos dos crimes de guerra, quando a revê, responsabilizada pela morte de prisioneiras judias durante um bombardeio. Aos poucos vão-se esclarecendo as razões da partida e os motivos pelos quais renuncia à defesa. Na época em que os campos de extermínio sucederam aos de concentração, Hanna desiste da fábrica em que trabalha, de onde, por seu desempenho, fôra promovida ao setor de escritório. Como analfabeta e no ímpeto de escondê-lo, resta-lhe o trabalho de carceragem em um Lager de então.

Hanna sente vergonha por não ler. Mas não por temor do desdém ou da humilhação pública. Não sendo externa, essa vergonha decorre do desejo íntimo do mundo mágico do qual está excluída, das fantasias que eternizam as experiências dos homens, resistem ao esquecimento e caminham em sentido contrário ao da morte. Como na obra primeira escrita no Ocidente: a Ilíada e Homero ressuscitaram Tróia da qual até mesmo as ruínas haviam desaparecido.

O amor de Michael permaneceu incólume à passagem do tempo. Seu casamento durou pouco; e a melancolia da perda de Hanna se confronta, agora, com a culpabilidade alemã e o genocídio. Pedida a prisão perpétua, a pena é agravada quando a protagonista aceita a acusação de ter assinado o documento que a incrimina, mas de que não poderia ser autora. Michael não intervém, mesmo quando descobre seu segredo. Nada diz aos acusadores sobre o que poderia diminuir a pena. Na prisão, Hanna é visitada por Michael, que não deixou de amá-la, mas não consegue aceitar seu comprometimento no campo, no conflito entre o sentimento e a lógica da punição.

Em diálogo com G.Grecco - e no âmbito de uma dificuldade semelhante -Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, diversamente do personagem, se esquiva em imputar a todos os que viveram esses anos: “sempre me recusei a formular um juízo geral sobre o homem. Mesmo sobre os nazistas. Para mim, o único processo que se pode instruir, e com todas as precauções necessárias, é o dos indivíduos.” De resto era o preconizado pelo professor com quem Michael freqüenta o tribunal.

Hanna não libertou as prisioneiras. Também escolhera, no campo, algumas que teriam a morte adiada, tempo durante o qual liam romances para ela. Sua resposta evocava a “lei do dever”. Como Eichamnn. Este afirmava cumprir ordens e se orientar pelo imperativo categórico kantiano. Considerava-se “culpado diante de Deus, mas não “responsável diante dos homens”; também Hanna diz não ter podido agir de outro modo. Devolvendo,porém, a questão aos juízes pergunta sobre o que eles próprios fariam se estivessem em seu lugar. Michael, ao visitá-la, espera uma retratação que não vem. Indaga se ela nada aprendera com a prisão, a que se segue : “aprendi a ler”.

Nada se aprende em situações de trauma. Choque paralisador da vida, o trauma bloqueia o pensamento. Michael pressupõe a autonomia moral no interior do Lager. Hanna testemunha, ao contrário, que, no campo, a vida se encontra em estado de exceção. Assim, Primo Levi narra ter furtado o chapéu de um outro prisioneiro, quando o seu desaparecera – o que acarretava a pena de morte, sentindo horror por si mesmo. Também os “muçulmanos” dos campos se encarregam do extermínio de outros judeus ao conduzi-los às câmaras de gás. Primo Levi e Hanna revelam que, em Auschwitz, carrasco e vítima confundidos, a violência é nua. No universo concentracionário não há dignidade nem liberdade .

Sem ser compreendida por Michael, tampouco aceita, desfaz-se, para ela, o laço tênue de amor aos livros e à vida. Seu suicídio atesta que, no pós-guerra, as ruínas não são materiais, mas morais e existenciais. Os amantes, fatalizados pelo nazismo, viveram um tempo condenado em que foi “meia-noite na História”.

Texto: Olgária Mattos

Da paz de espírito

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Da suindara


Há muito tempo atrás, eu tinha uma amiga que me chamava corujinha. Tudo por culpa das minhas olheiras genético/atópicas que sempre dão uma piorada em períodos específicos como o pós plantão. Apesar de não cultivá-las com carinho, sempre se pode suavizar as coisas com poesia.

“Que mesmo como coruja era – mas da orelhuda,
mais mor, de tristes gargalhadas;porque a suindara é tão linda,
nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma,
por cima de riscas sedas de brancura.”

Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Adolie Day

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A verdade sobre o quadro O grito

Não tem lua

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Do trabalho burocrático

Liniers

O grito


Uma versão de O Grito, do pintor norueguês Edvard Munch, foi leiloada nesta quarta-feira(02/04/2012) por US$ 119,9 milhões, na casa Sotheby's, em Nova York, tornando-se a obra de arte mais cara já vendida em um leilão.

Quando Munch criou a primeira versão de "O Grito", o artista alcoólatra e fumante inveterado estava num estado de desespero: acabara de fazer 30 anos, não tinha dinheiro, recuperava-se de um caso de amor desastroso e tinha pavor de sucumbir aos problemas mentais que corriam na família, diz Sue Prideaux, uma especialista em Munch. O artista colocou sua figura amebóide num local da baía de Oslo que era conhecido pelos suicídios. De lá, os passantes podiam ouvir os gritos de um matadouro e um manicômio próximos, diz Prideaux, acrescentando que a irmã de Munch, que foi diagnosticada com esquizofrenia, ficou internada naquele asilo. Uma possível interpretação errônea sobre seu trabalho pode ser sobre o grito em si: muitos historiadores da arte dizem que a personagem não está berrando, mas bloqueando o som da gritaria ao redor.

Os historiadores da arte consideram "O Grito" a reação de Munch ao impressionismo, que parecia entediá-lo — ele dizia que o movimento só mostrava pessoas lendo ou tricotando — e que abriu uma nova era de expressionismo em que os artistas tentavam dissecar suas próprias essências psicológicas. Quando ele pintou "O Grito", Munch já estava lendo os mesmo livros e participando das mesmas palestras em hospitais que Sigmundo Freud, diz Prideaux. Anos antes do primeiro "O Grito", Friedrich Nietzche havia lançado sua famosa ideia filosófica de que "Deus está morto", abrindo o caminho para as explorações modernas da alienação.

A imagem atraiu rapidamente a atenção da turma mais progressista da arte europeia. Para espremer o máximo desse entusiasmo, Munch criou litografias em preto e branco para que a imagem pudesse ser impressa em revistas europeias e vendida individualmente. Ele se recusou a explicar o quadro, alimentando ainda mais a fascinação do público.

Mais recentemente, a figura esquelética já foi reproduzida várias vezes e em vários lugares, de formas para cubos de gelo a pôsteres de campanha política.

Fragmento do texto de ELLEN GAMERMAN para o http://online.wsj.com em 29/04/2012

Por um dia colorido


Tirinha: Liniers
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Ouvindo agora

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