quinta-feira, 30 de maio de 2013

Coisas que escrevo enquanto espero a vida voltar

Aqui no quarto há uma grande janela aberta. Pela janela vejo o céu nublado e uma chuvinha fina que teimou em cair durante toda a manhã. Minhas preocupações estão misturadas com as lembranças do tempo, do lugar, da sensação, dos sons. Não era assim, não era pra ser, mas em dois dias não inteiros falei e ouvi coisas que não queria. Procuro aqui um livro pra ler na tentativa de que o tempo passe mais rápido. Me faltam coisas essenciais, coisas que só eu sei o que representam. olho pros lados e tenho a velha sensação já conhecida. Lembro do dia em que assinei  a escritura do apartamento: eu, a caneta emprestada, os olhos marejados e ninguém por perto, ninguém pra dizer como foi, porque foi. Na televisão uma série de reportagens no programa da manhã que me parecem pautas sem graça...o tempo não passa, a vida não passa.
Texto: Wandréa Marcinoni

domingo, 26 de maio de 2013

A purpurina


A dose

Ela abre um espumante barato e brinda sozinha à volta da solidão. Não aquela que dói e fere, mas a solitude escolhida, que lhe abre um espaço macio pra ser. Ao primeiro gole percebe: o espumante é demi sec. Um equívoco para ilustrar a vida. O gole doce na taça rasa antiga de cristal azul que foi da mãe.
Repetições?
Tudo que ela quer é voltar a tomar posse de si. Ser dona dos seus desejos de novo. Quais eram eles?- não lembra.
Não é ruptura, é reencontro.
Desde que se tornou mãe. Desde que tomou posse da dor. Desde que se pôs na estrada. Desde quando?
Onde ela caminha nessa pista?
Há espaço para ultrapassar?
Para onde vai?
Larga o carro a pé para não levar mais peso consigo?
Em alguns momentos ela só quer aumentar o volume do som e cantar bem alto, com o vento nos cabelos. Em outros, quer ter o privilégio de não guiar o carro, com a certeza de ainda assim estar indo.
Ela se entrega demais, se entrega muito, inteira, não sobra nada para si. Nem sabe mais como é sua voz. Ela sai de si ao encontro do outro e deixa sua cama e sua casa vazias, sem o calor da sua presença. E depois cobra do outro o  que lhe falta. Mas foi ela mesma que se tomou de si.
E então ela dança sozinha pela sala e sente o corpo como há muito tempo, com saudade de quem foi.
Para depois dar mais um gole na bebida doce e amargar o gosto da escolha.
Exagerou na dose e a ressaca é toda sua.
Texto: Cristiana Guerra
Imagem: Ann Mei





sábado, 25 de maio de 2013

O que não foi assim será

Foi que você não me disse nada disso.
Tínhamos um pacto que falhou.
Nem você cuida de mim, nem eu cuido de você.
É bem simples assim.
Sem os devidos passamentos, maldições ou pragas amealhadas.
Não te dou minha honra.
Não me impões tuas neuras.
Não compactuamos da série vítima-maldição.
Não caminhamos descalços.
Não coroamos reis e rainhas.
Destruímos castelos.
Caminhamos em direções opostas e fazemos o esforço humanamente possível para nunca mais cruzarmos caminhos ou direção.
Eu aqui.
Você no Japão.
Cartas no lixo.
Presentes doados.
Sorrisos ocultos.
Choro engolido.
Mágoas varridas pra debaixo do tapete.
As latas no chão.
Não me arrastarás.
Não haverá mais imposição.
Os outros com outros olhos olham pra nós.
Nós que já fomos fortes.
Nós que hoje somos nós desatados, passos tortos, sonhos perdidos e uma mínima esperança escondida no bolso da calça.
Texto: Wandréa Marcinoni
Baseado no que nunca haverá de ter sido.

Toda terça

Eu sou daquelas pessoas que manipulam seu destino sem destreza.  Tantas vezes pude perceber minha não habilidade para coisas corriqueiras. Falar? Sempre preferi ouvir. Eu faço muito por todos. Tentativa de aprovação e aceitação. Espero retorno e ele   nunca vem. Corro. Sou míope. Olhar escuro. Tropeço e choro logo de manhã. Sou fruto mal construído. Desci as escadas. Estava na praça. Chegaram de carro. E o meu futuro evaporado?
E minha planilha não sustentada?
E minha falta de money?
E minha mola do mundo?
E a terça feira?
Texto: Wandréa Marcinoni
Baseado em sentimentalismos fugazes em noite de sábado
Imagem: Tatiana Deriy

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Hoje

A vida sem rotina. A casa sem paredes.
A vida.
Os quadros pendurados no teto.
O barulho de moer vindo da cozinha.
O estalar da pipoca no microondas.
A falta
Sentava e tinha premonições.
Arrepios só em pensar na última tarde.
O escorrer entre os dedos.
O tentar segurar o copo já no momento que tocou o chão.
Cortou a mão.
Correndo pro quarto achou apenas uma das camisas que raramente usava.
Enrolou o ferimento, mas isso a faria lembrar por muito tempo.
Olhou pra sua mão e viu que já havia parado.
Foi ao banheiro.
Lavou com sabão.
Voltou para sala.
Os quadros agora estavam no chão.
Sua alma agora na boca.
Seu peito acelerado.
Sua vida e sua rotina.
Sua casa.
Seu descanso do seu dia.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Nicoletta Ceccoli



quarta-feira, 1 de maio de 2013

O mar e o pensamento

"O que penso,
O que digo,
O que sou...
Pingo de chuva no mar."

Texto: Helena Kolody

Imagem: Arquivo pessoal

O inventário

E daí que ela deu de sonhar.
Desde que o interventor abandonou o barco se achou digna de regalias e soberba.
Ela era ingênua.
Achava-se dona do seu lidar.
Não admitia tropeços e usava de impáfia por vezes.
Um dia desdenhou de uma conhecida.
Passado o tempo houve um breve e leve arrependimento.
Ousou sonhar e caiu.
Do último e derradeiro andar.
Se viu como na valsa vienense ou numa crônica de Nelson Rodrigues
Sem casa, sem alma, sem par.
Logo ela, logo ela...
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

O tempo e o vento

Da primeira vez que te vi foram só as palavras.
A imagem na praia do rio.
O cabelo molhado.
A escrita perfeita.
Mal sabia o que viria.
A segunda vez que te vi foi meio em silêncio.
A despedida bem cedo da noite.
A terceira vez que te vi foi naquele cinema.
Antes do filme você me falou da escrita do blog do tempo da terra do nunca.
A quarta vez que te vi eu já esqueci.
Da quinta e da sexta nem sei.
Parei de contar quando perdi a cabeça.
Daí pra frente foram os dias, as flores, os doces, as marcas.
Daí pra frente o tempo parou.


Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

A noite

Entre temas repetidos eu vivo.
Não há nada que mude.
Há o eterno vagar.
Meu pensamento nunca se completa.
Simplesmente vou.
Tem um tempo que a vida me acenou.
Montado o palco foi me permitido atuar.
Logo eu que sempre preferi  os bastidores.
A vida.
O eterno caminhar.
O rumo.
A falta dele.
Hoje sou eu.
Mas será que sou?
Findado o dia, perdi.
Quando tento encontrar, já foi.
Ele ao meu lado fala que já foi.
Ele joga comigo.
E é um jogo que ainda não sei jogar.
É quarta feira.
É feriado.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal