sábado, 30 de junho de 2012

Nada realista


Olhava por horas a parede branca em frente à cama.
O flash de hoje era o encontro de horas atrás.
Luzinhas imaginárias e faróis com suas luzes ofuscantes.
Nem lembrava mais do que era.
Só pensava na manhã de hoje.
Como se tudo fosse apagado como a borracha faz com os traçados a lápis sobre o papel.
Não sabia se era por conta da luz do sol ou por conta da estrada de terra.
Por um instante pensou que podia ser sempre manhã, sempre dia de sol, sempre vento no rosto.
Depois caiu na real: Todo dia de sol merece ter a noite para ser completo.
Texto: Wandréa marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

Dominó e efeito em cascata


Para manter em sua mente pensamentos positivos que sobrevivam às intempéries do dia a dia é preciso muito mais que esforço e determinação. Seria mais do que resignar-se e aceitar. Precisaria de imaginação, acontecimento, inspiração e uma certa dose de loucura. Na última semana passei por uma sequência de provações que foram além da paciência e em certas horas cheguei mesmo a pensar que se a sanidade não é característica natural de alguns seres por aqui, por que eu deveria agir sempre apostando nela?
É difícil compreender a falta de talento para lidar com o outro. É difícil entender o porquê das coisas. E seria tão mais fácil se eu me permitisse. Mas eis que eu não permito. E tento sozinha remover cada nó achando que isso é o modo mais confortável pra alguém, característica minha que permite apenas entrar num ciclo vicioso de estafa mental. Meio que cansei desse caminho torto onde não removo as pedras, apenas amontoo acreditando que lá no final vou conseguir saltar sobre elas.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um caso de poesia


Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.
Texto: Carlos Drummond de Andrade
Imagem: Arquivo pessoal

Primeiro capítulo

domingo, 24 de junho de 2012

Iceberg



“Seu sorriso derretia satélites e corações gelados.”
Texto: Caio Fernando Abreu
Imagem: Arquivo pessoal

O amor




Minha mãe achava estudo
A coisa mais linda do mundo.
Não é.
A coisa mais linda do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado.”
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Texto: Adélia Prado
Imagem: Shiori Matsumoto

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Das coisas mais leves



"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."
Texto: Mário Quintana

Turvo


Ontem sonhei que o mundo ia num desentrave sem fim.
As sombras meios apagadas perdidas em quartos fechados.
O susto ao acordar me trouxe as lembranças mais próximas.
Tendenciosamente tento rememorar os fragmentos perdidos das frases desconexas, do tempo irrestrito, do anjo que se foi.
Tentei comentar algo hoje pela manhã.
Dizem que assim fazendo não vira realidade.
O que foi e o que é se misturam e eu já nem sei mais de nada.
O fruto, a retórica perdida em mil palavras abafadas na fumaça.
O voo da águia, uma encosta, terra, argila, barro, negro, turvo, tosco, inefável cicatriz.
Texto: Wandréa Marcinoni

quinta-feira, 21 de junho de 2012

No mesmo lugar

Fragmentos


Certas noites dei pra falar dos filmes que não assisti.
Como se sobre mim pairasse aquela névoa da sala de cinema fechada.
Poltronas vermelhas e luzes apagadas.
A vaga lembrança de um jornalista bêbado, poetas malditos e assassinatos em série.
O difícil é lembrar das histórias com plenos detalhes.
Mas histórias e filmes às vezes não precisam ser contados.
Eles já falam por si.
Texto: Wandréa Marcinoni

Porta-agulha


Do blog anita no alfarrabista

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Das dificuldades do tempo


Talvez o tempo tenha roubado um tanto de esperanças.
Achava da guerra só o que se pode achar.
Sento à mesa e esqueço.
Quase que esqueço do passado.
Mudo de sonho e carrego potes pra colocar no fim do arco-íris.
Você aparece em ciclos.
Manda suas mensagens.
Depois some.
Você tem o perfeito hábito de ser você.
Atitudes milimetricamente planejadas.
Aguardo até hoje saber dos livros que te devolvi.
O branco da capa se mistura com o calor de uma tarde e revira tudo aqui dentro.
Tua palavra perdida.
Teus olhos de mar.
Tua perda por nada.
O teu nada.
O teu vazio.
Tua marca.
Tua marca que já teima em sair.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Rob Scotton

terça-feira, 19 de junho de 2012

De todo significado


De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapato.
De tudo, talvez, restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.
Texto: Marcelo Montenegro
Imagem: Sonja Wimmer

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Manhã


Quando ao mesmo tempo o bater das asas de uma borboleta, o piscar dos meus olhos e a minha respiração acelerada ocorreram.
Quando eu parei de perceber se as horas do relógio continuavam a passar depois da meia noite.
Quando parei de andar descalça.
Quando as leituras permaneceram pela metade e deixei um amontoado de livros por sobre a mesa.
Quando passei a comprar flores semanalmente sem mesmo sentir o cheiro delas.
Quando meu pensamento parou no ar e minha escrita se tornou mais rara.
Foi que eu percebi da confusão de mim mesma.
O que sinto, eu falo, mas às vezes não.
Sempre foi mais fácil guardar os sentimentos com tarja preta na parte de cima do armário.
Hoje caixas, conteúdos, fantasias e desejos estão todos misturados e de fato já não sei de nada.
Porque já sonhei demais.
Porque hoje é proibido.
Porque hoje a liberdade já se foi.
Porque hoje não há mais nem os cacos.
Porque hoje eu sou outra.
Sou só a centelha implorando pra viver.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Nicoletta Ceccoli

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Meu olhar


Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
desejasse.

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Texto: Hilda Hilst

sábado, 9 de junho de 2012

Pra toda chave


Hoje de manhã soou o que eu não ousei dizer-te.
E por não dizer-te me desfiz em pó.
Guardei em uma caixa de madeira forrada com tecido de seda.
Entreguei-me a ti como presente e nada.
Não me vistes.
Não me achastes.
Nem eu.
E já vão meus poucos dias.
Os últimos e os primeiros.
Os meus dias ao teu lado.
Os meus poucos.
Meus poucos dias.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Pete Revonkorpi

Ouvindo agora


Registro




À janela
de meu apartamento
à rua Duvivier 49
(sistema solar, planeta Terra,
Via Láctea)
limpo as unhas da mão
por volta das quatro e quarenta da tarde
do dia 2 de dezembro de 2008
enquanto
na galáxia M 31
a 2 milhões e 200 mil anos-luz de distância
extingue-se uma estrela

Texto: Ferreira Gullar
Imagem: Olivia bee

Como se não te visse


Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Texto: Hilda Hilst
Imagem: Nicoletta Ceccoli

Ausência




Na almofada branca,
as sandálias sonham
com a seda dos teus pés...

Partiste..
Mas a alegria ainda ficou no quarto,
talvez no ninho morno, calcado por teu corpo
no leito desfeito...

Entardece...
Esfuziante e verde,
um beija-flor entrou pela janela,
(pensei que a tua boca ainda estivesse aqui...)

Do frasco aberto,
vestidas de vespas,
voam violetas...

E na almofada de seda,
beijo as sandálias brancas.
vazias dos teus pés.

Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Olivia Bee

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A ausência


Que esse tempo maior
Que essa falta se apague
Que nasçam as flores azuis
Minha vida apagada
Minha respiração
Meus pensamentos voando como balões coloridos
Minha ânsia por terminar algo sem começo
Minha alma respingada por velas derretidas
Meus pés que nunca estiveram dispostos a pisar o chão
Meu olhar meio triste
Minhas diferenças
O que eu escondi
Tudo que escorre agora das mãos e vai embora como correnteza
Tudo que eu ainda não sei e tudo que não entendo
Que o pouco transborde e me esconda
Me esconda provavelmente só de mim.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Loretta Lux