sábado, 31 de março de 2012

Ouvindo agora

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Colheita




Eu procurava o amor em jardins de cactus. Vinha buscando o fruto em árvores erradas, e nas mordidas sentia o gosto azedo, que amarga no fim da boca. Colhi amores podres, comidos pelo tempo e dor.

Foi preciso paciência – e um outro tempo – amadurecendo um fruto para colhê-lo doce, suave, terno e delicado. Simples como naturalmente é.

Eu imaginava haver segredos por trás dos espinhos. Mas é puro acaso que amores e espinhos se encontrem em botões abertos ou fechados. A rima entre amor e dor é armadilha.

O verdadeiro fruto está ao alcance das mãos – mas é tão rasteiro, que quase não se vê. É preciso passear sem fome para enxergá-lo redondo, vermelho. Para então mordê-lo distraído como numa tarde de chuva.
Texto: Cristiana Guerra
Imagem: Nirrimi

Do inverno


Dos meus pensamentos eu já nem sei.
Cumpro a sina de quem pagou pra ver.
Alguns longos poucos anos.
A falta de serenidade.
Uma doação.
Não vi nada. Nem o tempo passar.
Por conta de tal assoberbamento é que hoje reviro as páginas e oculto o que não faria bem.
Será que não é melhor se expor? - perguntou a fada de olhos azuis.
Assim será melhor? - retruquei eu.
Depois, como se mudasse de cena pus meus óculos escuros e me escondi.
Vendei meus olhos para não me trair.
Teci mais alguns comentários banais e deixei a sala.
Ela ficou só, tão só, tão só quanto eu.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Nicoletta Ceccoli

Uma palavra


Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve.
Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida.
E ouvi. E pensei. Tudo se desfez.
Mas houve uma palavra - meu Deus.
Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue,
palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira,
do universo que nela se conglomerava, palavra total. (...)
Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser.
A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação.
Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder.
Ao princípio era a palavra.
Eu a soube.
E nada mais houve depois dela.
Uma palavra: Amo-te.

Texto: Vergílio Ferreira
Imagem: Benjamin Lacombe

sexta-feira, 30 de março de 2012

Uma sequência de filmes que eu amei




1973



Ser feliz do modo que se é. Ser diferente.
Gosto de pensar assim: se a gente faz o que manda o coração, lá na frente, tudo se explica. Por isso, faço a minha sorte. Sou fiel ao que sinto. Aceito feliz quem eu sou. Não acho graça em quem não acha graça. Acho chato quem não se contradiz. Às vezes desejo mal. Sou humana. Sou quase normal. Não ligo se gostarem de mim em partes. Mas desejo que eu me aceite por inteiro. Não sou perfeita, não sou previsível. Sou uma louca. Admiro grandes qualidades. Mas gosto mesmo dos pequenos defeitos. São eles que nos fazem grande. Que nos fazem fortes. Que nos fazem acordar. Acho bonito quem tem orgulho de ser gente. Porque não é nada fácil, eu sei. Por isso continuo princesa. Continuo guerreira. Continuo na lua. Continuo na luta. No meio do caos que anda o mundo, aceitar é ser feliz.

Texto: Fernanda Mello
Imagem: Benjamin Lacombe

Da visão

Do capital


Quanto menos comes, bebes, compras livros, vais ao teatro e ao café, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas desporto, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. «És» menos, mas «tens» mais. Assim todas as paixões e actividades são tragadas pela cobiça.

Texto: Karl Marx
Imagem: Banksy

Com saudades, mas nem tanto

Em tempos de imposto de renda



Minha primeira sogra era uma dessas pessoas que tentam burlar o imposto de renda. Uma vez, no intervalo de um filme ou coisa assim, ela lançou um paradoxo muito profundo: “O problema é que nós tentamos convencer o banco de que somos ricos e, ao mesmo tempo, convencer o governo de que somos pobres. E depois eles chegam e cruzam os dados”.

Acho que esse é basicamente o paradoxo dos países que ficam tentando incentivar o turismo e, ao mesmo tempo, conter a imigração.

Em 2007, por exemplo, a prefeitura de Barcelona e o governo da Catalunha investiram dois milhões de euros na produção de “Vicky Cristina Barcelona”. No ano seguinte, companhias americanas que nem tinham voos diretos para Barcelona criaram esses voos. Todo mundo queria ser Rebecca Hall e ser baleado na mão por uma amante latina enlouquecida.

No entanto, ao mesmo tempo que pagava Woody Allen para incentivar o turismo, a Espanha tentava convencer os imigrantes a irem “para casa” porque o país estava pobre demais para “sustenta-los”. Será que eles não entendem que uma hora o turista realmente empolgado cruza os dados e resolve estender as férias?

Quando minha ex-sogra colocou o paradoxo do imposto de renda na roda, criei um pequeno climão dizendo que ela poderia simplesmente decidir se preferiria pagar menos taxas no banco ou menos imposto ao governo.

Acho que alguém poderia fazer algo semelhante explicando para a União Europeia que tudo seria mais simples se eles escolhessem se querem ganhar o dinheiro dos turistas ou economizar o que dizem gastar com os imigrantes.

Sei que nem todo mundo escolhe o país para onde vai migrar por conta da sedução de um filme ou de uma viagem, mas eu não subestimaria a sedução das coisas fúteis se fosse você. No fim das contas, supridas as necessidades muito básicas, todo mundo quer morar no lugar que lhe promete sonhos.

Texto: Juliana Cunha

O filósofo

So cute

quarta-feira, 28 de março de 2012

Das saudades que eu sinto



Se um dia já homem feito e realizado
Sentires que a terra cede aos teus pés
Que tuas obras se desmoronam
Que não há ninguém
à tua volta par te estender a mão
Esquece a tua maturidade
Passa pela tua mocidade
Volta à tua infância e balbucia entre lágrimas e esperanças
As últimas palavras que sempre te restarão na alma:
Minha mãe, meu pai.
Texto: Rui Barbosa
Das lembranças do Franco Maranhense
Imagem: Arquivo pessoal

Rotina


Será que todo mundo se pergunta como é que dá conta de tanta coisa?
Hoje saí cedinho de casa a fim de fazer um programa " como cuidar de si em pequenos atos". Fui ao salão, no que eu gastei mais tempo do que o previsto me sobrando apenas um "naco" mínimo pra almoçar e me dirigir à labuta. Saí às 19, peguei um trânsito "garrafal" até a linda cidade das Águas Claras. Pensava no caminho enquanto ouvia um CD antigo de Zé Ramalho que o trânsito não estava dos piores, o que me faria chegar ao meu destino apenas no dobro do tempo normal. Estava bem felizinha, adentrei na minha cidade ( não a natal, mas a pele que habito) e me deparo em plena Avenida Castanheiras com o retrato do caos implantado em meia pista. Me desloco até o Big Box e resolvo fazer as compras do mês. Saio às nove e enfim lar doce lar. Bom, tudo tem um final feliz: um bom banho, meus filhos, meu cantinho, minhas coisinhas, minha vidinha caseira.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

terça-feira, 27 de março de 2012

It´s easy


Imagens daqui: observando.net

So cute


Imagem daqui: observando.net

Simples assim


"Os três estavam contentes, tinham aquele sorriso de olhos que valem por todos os sorrisos de dentes e lábios"
Texto: José Saramago
Imagem: Arquivo pessoal

Pequenos problemas


Imagem daqui: observando.net

Meu raio de sol





" Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho e eu perdia o sossego."
Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Tim Warnes

Pesquisa aponta aumento no consumo de drogas entre os brasileiros

Frida por ela mesma


"Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor"

Saudade


Renato Russo completaria hoje 52 anos.

Vi hoje

sábado, 24 de março de 2012

Fofa

Ouvindo agora


Frutificar


Tirinha: Kioskerman
Clique na imagem para ampliar

Blindness


Diz-se a um cego, Estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, Vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ficou ali parado no meio da rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicómio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar. Postados diante do edifício que já arde de uma ponta à outra, os cegos sentem na cara as ondas vivas do calor do incêndio, recebem-nas como algo que de certo modo os resguarda, tal como as paredes tinham sido antes, ao mesmo tempo, prisão e segurança. Mantêm-se juntos, apertados uns contra os outros, como um rebanho, nenhum deles quer ser a ovelha perdida porque de antemão sabem que nenhum pastor os irá procurar.
Texto: José Saramago

sexta-feira, 23 de março de 2012

Ceciliando


O vento do meu espírito
Soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero
Se desfez.
E ficaste só tu, que és eterno...
Texto: Cecília Meireles

Só a metade



No começo, a gente só o encontra nos suspiros da mãe, nos olhos do cachorro esperando no portão, na cadeira vazia, no remendo dos armários, nos pregos segurando os quadros, na garrafa de vinho, pela metade. Aos pouquinhos e devagar, a gente começa a encontrá-lo nas alegrias do mundo, no vôo das cotovias, no desenho das nuvens formando barquinhos e caravelas, numa pessoa sem mágoa, nas toalhas sem nódoa, e até quando felizes nossos olhos vão se enchendo d'água.
Texto: Rita Apoena
Imagem: Sonja Wimmer

quinta-feira, 22 de março de 2012

Os sonhos fortuitos


Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
Texto: Caetano Veloso

Daquilo que me habita


Mostra que traz oito intervenções que ocuparão as áreas externas do CCBB Brasília. Nesse espaço ampliado ao fluxo das pessoas e informações que circulam no CCBB, os artistas foram convidados a pensar macrorrelações, os ciclos sustentáveis, os ciclos imperfeitos, as formas de convivência, a afetividade, o habitar no sentido mais amplo, o corpo e suas interfaces com o mundo. Os oito artistas participantes oferecerão workshops abertos ao público interessado (crianças, jovens e adultos), que acontecerão no CCBB e em outros espaços da cidade.

Data: De 24 de março a 13 de maio de 2012
Local: Jardins | SCES, Trecho 2, lote 22
Entrada Franca
Texto retirado do site do CCBB

Da felicidade


"Ser feliz é estar distraído"
Texto: Dulce Maria Cardoso
Imagem: Arquivo pessoal

Porque tinha que ser


Antes de você vir, o sol já brilhava.
Já havia o vento, a estrada e o girassol.
Antes de você o silêncio era o silêncio, os sons doíam o ouvido, os relâmpagos vinham antes dos trovões e isso, eu acho, por uma questão meramente física.
Antes de você uma estrela explodiu e sua ausência no céu não foi percebida.
Antes de você se dava bom dia e cumprimentava-se estranhos como velhos conhecidos.
As portas se abriam, as janelas fechavam, alguém da vizinhança saía para passear com o cachorro, alguém nascia, alguém chorava.
Antes de você se inventou o relógio, o avião, a televisão e todo tipo de entretenimento banal.
Antes de você havia parques de diversões, zoológico e pique nique.
Alguém acordava cedo, tomava café, se despedia e saía a trabalhar.
Antes de você e bem antes de você se inventou a pólvora, o papel e as palavras.
Antes de você e bem antes de você.
Mas então por que teimo em sentir que antes de você não havia nada?
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Maggie Taylor

Poucos


Em todas as almas como em todas as casas,
além da fachada, há um interior escondido.
Texto: Raul Brandão
Imagem: Sonja Wimmer

I'm here :-)

domingo, 18 de março de 2012

Quero ver esse


O rio


Atrás da casa da Rua das Flores passava um rio...

Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia
o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam
naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse minha mãe compraria
rapadura
ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me
deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma
rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava
do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversário de meu
irmão
ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera
ao meu irmão
e achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens
do meu rio
e de noite eles iriam dormir na árvore do
meu irmão.
Meu irmão me provocava assim:
a minha árvore deu lindas flores em Setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava
piraputanga.
Era verdade, mas o que nos unia demais eram
os banhos nus no rio entre os pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!
Texto: Manoel de Barros
Imagem: Nirrimi

Presente