terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A gente se acostuma

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez paga mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Texto: Marina Colasanti
Imagem: Max Moura Wolosker

sábado, 17 de dezembro de 2016

2016




Em 2016 presenciamos  a queda da presidente, a ascensão do vice traidor, a prisão do presidente da câmara, a queda de mil ministros, a retirada do eterno presidente do senado, que voltou com o conhecido jeitinho brasileiro( não participa da linha sucessória, mas persiste como presidente do senado), a PEC que congela nossa vida por 20 anos, a aposentadoria retardada, a destruição de Aleppo, os refugiados, os atentados na França, Turquia, Orlando, Bruxelas, Paquistão, Jacarta, Nice, Munique, Normandia. As gravações, a lava jato, as olimpíadas do Rio. Teve nossa vida do dia a dia. No esquema do trabalho-casa. Os minutos passaram, as horas passaram, os dias continuaram, o ano terminou. Já é natal, o ano termina. Compramos presentes, o ano termina. Nos confraternizamos, o ano termina. Brindamos com amigos, o ano termina. E aí vem os projetos pro ano que vem. Desejo maior: que minha luta (só) que já dura 6 anos por fim, seja vitoriosa. Que eu possa estar junto do meu pequeno, proporcionando todas as possibilidades de desenvolvimento que ele precise. Que ele seja capaz e independente. Que ele me surpreenda ainda mais do que  tem feito. Que ele fale com sua voz cantada no meu ouvido. Que ele diga sempre que me ama como eu sempre digo que o amo. São seis anos de luta. São seis anos em que me é negado um direito que vejo estampado todos os dias nas mídias em geral. Que aqueles que me rodeiam tenham um olhar diferente. A inércia é indiferente e fria. Não aquece meu coração. Onde andará a palavra/sentido empatia? Desejo a todos, apesar de tudo, que sejam felizes, mas que olhem pro outro.  Desejo mil viagens, mil olhares pela natureza encantadora desse planeta. Desejo estar mais com minha família. Desejo a fé da minha mãe. Desejo ser vista além da minha aparência. Desejo que o preconceito seja extinto. Desejo tolerância com o diferente. Desejo ser capaz de ser eu. Não queira agradar. Isso não funciona! Desejo ter meus pais junto a mim. Desejo a todos o amor que eu sinto. Desejo ser assim pra sempre. Que venha o próximo ano e possamos fazer tudo do mesmo jeito, só que diferente.
Texto: Wandréa Marcinoni
Fotos: Max Moura Wolosker

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sonho

Ontem sonhei que o mundo ia, num desentrave sem fim.
As sombras meios apagadas diziam para não mexer comigo.
O susto ao acordar me trouxe as lembranças mais próximas.
Tendenciosamente tento rememorar os fragmentos perdidos das frases desconexas, do tempo irrestrito, do anjo que se foi.
tentei comentar algo hoje pela manhã.
Dizem que assim fazendo não vira realidade.
O que foi e o que é se misturam e eu já nem sei mais como é.
O fruto, a retórica perdida em mil palavras abafadas na fumaça.
O voo da águia, uma encosta, terra, argila, barro, negro, turvo, tosco, inefável, cicatriz.

Texto: Wandréa Marcinoni

Palavras


 Escrever pode não ser algo que se aprenda nos bancos das escolas. Pode ser apenas aquela fuga que se usa quando não se é bom com a palavra falada. Ao menos pra mim faz todo sentido. Sempre tive a certeza da minha total falta de time ao dar respostas pras colocações absurdas de certas pessoas. Lembro  de situações do passado onde devia ter dito e não disse. A começar pela clássica história do "Wandréa você comeu queijo?". Mil horas depois eis que aparece a bendita da  resposta que seria a solução cheia de charme pra sair do papel de boboca do ano, mas enfim "...eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...". Na hora de falar as palavras calam, Daí escrever faz com que eu ordene os meus sentimentos, faz com que eu fale de mim através dos outros, interceda por perdão, crie situações que jamais viveria, tire o peso do mundo das minhas costas. Faz com que eu  caminhe quilômetros sem sair do lugar e mova montanhas. Escrevendo posso ser criança de novo. Posso mudar de planeta, falar dos outros sem culpa, julgar ou ser julgado,  viver ou morrer,  sofrer e chorar. Para quem escreve é um prêmio ver as palavras fluindo mais fáceis, sem o gaguejo da timidez, sem a parede da vergonha, sem laços ou amarras que te prendam. Escrevendo você é você como veio ao mundo. É você com olhar de criança. É como pisar no chão com os pés descalços vestindo a "roupa de casa". É parte da melhor parte de mim.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal