terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Nós

Olho pra mim numa paisagem que não reconheço, e me ver sorrindo na foto só aumenta a sensação de estranhamento. Mas a imagem confirma: aquele lugar existiu e aquela menina era eu. Então, apesar de não lembrar, acredito que esse dia aconteceu. Ao mesmo tempo, tantas vezes duvido de certas lembranças, e me pego olhando para o passado como se fosse um sonho que a memória inventou.
Texto: Silvana Tavano

Mar


A vida tem estranheza nas palavras. Esse eterno vai e volta. Ontem senti taquicardia apesar de engolir tantas lágrimas, tive vontade de não fazê-lo. Nunca tenho ao certo as rotas de fuga. Me enclausuro num mesmo eu: Pequeno, apertado, irrespirável. E aí, é tudo que tenho: um ambiente claustrofóbico e insalubre que é meu corpo e minha mente. Meu corpo com dores: braço direito, tornozelo esquerdo. Minha alma com agulhas.  À noite, o barulho dos carros que entra pela janela, o ventilador lembrando que faz calor. E um boa noite com sonhos. Sonhos que nunca vêm.
Texto: Wandréa Marcinoni

Dicas de trabalho



Quem trabalha com livros tem que estar preparado para tudo.
Hoje uma senhora muito simpática, de sorriso nos lábios, dirige-se ao balcão:
- Venho ter convosco para me resolverem um problema.
- Faça favor, estamos cá para isso.
- Eu comprei nesta livraria um livro e queria saber como o posso desparasitar?
Os outros clientes que estavam junto ao balcão riram em uníssono e sem pudor.
Nós fizemos uma cara séria e profissional, afinal de contas aquela era uma pergunta pertinente. 
A verdade é que vendemos livros antigos e alguns, raramente, mas acontece, trazem bicho. O que podemos fazer... Bem, profissionais como somos, não deixámos de dar resposta à cliente. Assim, aqui vai para quem quiser saber, a receita para nos vermos livres dos bibliófilos bichos e, ao contrário do que se possa pensar, não é com nenhum produto químico (existem vários), mas sim de uma forma muito natural: pega-se no livro, embrulha-se muito bem em plástico e coloca-se no congelador de um dia para o outro. Simples, mas eficaz. E sim, estamos mesmo a falar a sério.
Texto retirado do blog Pó dos livros

My wings

Poucas semanas e ela já se sente como se fosse eterna

Quadrinhos


Os azuis da vida começam sem saber

A vida começa todos os dias.
Érico Veríssimo

O mundo de Sofia

Quando ela sonhou, não era bem assim.
As coisas não tinham essa forma.
Braços, pernas, rosto, corpo.
Nada tinha esse jeito.
Ela carregava em seu ventre uma mini pessoa.
Carregava a pessoa que ela não foi.
Era uma pequena, loirinha, olhos cor de mel e sardas.
Era uma menina de sonhos.
Ela carregava e olhava sua barriga e seu sonho.
Às vezes sentava no sofá da sala e fazia como mãe, carinho em quem não via.
A música no som.
Clássicas músicas de ninar sonho.
Sonho cultivado 1, 2,3.
E não veio.
Ela se encolheu no canto.
Falou uma prece que não lembra qual foi.
Se trancou no banheiro pequeno.
Sentou ao lado da pia e leu uma oração escrita em papel.
Se fosse ela.
Ela não veio.
Ela de pés pequenos.
Pensou que queria vesti-la, alimentá-la, acalentá-la e dar tudo o que não teve.
Ela pensou e sonhou.
Parecia balão branco de história em quadrinho.
Balão que estoura com a tal realidade.
Ela queria mais, ela queria.
Não veio e o que restou foram as fotos que não tirou, os dias não celebrados, o abraço não dado e a mão amiga.
O que restou foram móveis baratos, palavras exaustas e corpo sem vida.
O que restou foi ela e só ela sabe porque restou.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Olivia Bee

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ouvindo agora

Entre Viena e Lisboa



Apesar dos constrangimentos e dos esforços da mãe, a menina continuava num choro compulsivo. Os passageiros ao redor tentavam não demonstrar o desconforto que sentiam. Ao mesmo tempo, ao menos aqueles que já haviam experimentado situação semelhante, compadeciam-se da pobre mulher.
O russo, com toda a impaciência que lhe era peculiar, demostrava de fato a que havia vindo. Antes havia reclamado da falta de espaço para acomodar sua bagagem de mão, como se o fato de ter chegado por último e portar uma mochila tão grande como a de todos os outros fosse culpa dos demais passageiros. Quando se levantou pela segunda vez em menos de uma hora para ir ao banheiro, o casal que já estava incomodado pela cena anterior passou a se sentir intimidado.
Até ali a viagem que já durava 18 dias dos 21 programados foi perfeitamente dentro do planejado. Uma lua de mel sem casamento de dois namorados que se conheceram 6 meses antes e que viviam uma paixão intensa que fazia com que todos os momentos que haviam vivido nos 30 e muitos anos parecessem esmaecidos por uma sensação de que haviam se conhecido desde sempre.
O homem ao seu lado, estava vivendo situação semelhante com seus vizinhos de poltrona. Fizeram o check-in em cima da hora, de forma que teve que viajar desacompanhado de sua esposa , que viajava na poltrona de trás e parecia incomodada com o senta -levanta -senta do marido e com a perspectiva de quatro horas de viagem até Lisboa. A viagem de volta é sempre mais cansativa que a da ida, apesar da distância ser a mesma.
Tão logo o avião passou da zona de turbulência, a situação voltou a se acomodar. A mamadeira quente teve o efeito sonífero que usualmente causa nos bebês. O russo colocou seu iphone para tocar música e isto pareceu acalmá-lo. Tudo o que restou foi o amor do casal de namorados em lua de mel, o barulho constante das turbinas e todo o tédio e a monotonia que são inerentes às viagens de avião.
Imagens: Arquivo pessoal
Texto: Max Moura Wolosker
Fatos: Verídicos
Russo: Sem educação





Desejos

Os Três Mal-Amados




O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte

Texto: João Cabral de Melo Neto

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Pra nosso momento


Eu sou o caule

dessas trepadeiras sem classe,

nascidas na frincha das pedras:

Bravias.

Renitentes.

Indomáveis.

Cortadas.

Maltratadas.

Pisadas.

E renascendo.


[Minha Cidade, Cora Coralina]

My dream


Eu amo Aquele que caminha
Antes do meu passo.



Texto: Hilda Hilst
Imagem: Rob Scotton

Meus olhos cansados de te ver


Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa
Despe meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama
E conta-me histórias, caso eu acorde
Para eu tornar a adormecer
E dá-me sonhos teus para eu brincar.
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Texto: Fernando Pessoa(Alberto Caeiro)
Imagem: Ann Mei

Homens que são


Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Texto: Daniel Faria
Imagem: Rob Hefferan

Férias


No mar

Mergulho nas ondas
Desmancho feito espuma
Tiro os pés da areia
Imagino sereias

No mar

Fecho os olhos e flutuo
Sinto o ar salgado e puro
Abraço a água e me misturo

No mar

Texto: Silvana Tavano
Imagem: Arquivo pessoal

Quinta feira


Será que ainda sou eu mesma?
Por um momento me lembrei de uma tarde sem muitos atrativos em que levava o Biel pra consulta. Todas as vezes ele quer subir pelo elevador panorâmico e mesmo que os outros tenham chegado primeiro temos que pacientemente esperar. Essa tarde, olhando lá pra baixo vi o vai-e-vem das pessoas e por aqueles instantes em que o pensamento tem mais do que a velocidade da luz enxerguei em cada passo apressado a similaridade e a diferença. Todos num movimento constante. Instante interrompido. Ali vi a mim ou não me vi
Vi a história e a falta/presença.
Vi o caminho meio torto.
Vi a busca por alguma direção.
Mas a porta abriu e fomos os dois para a sala 735.
E toda quinta feira é assim.



Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal