quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Coragem

"Em uma época em que os desejos duram o tempo de uma estação, amar virou coisa de gente corajosa."
Fernanda Mello
Imagem: arquivo pessoal

Repouso

Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalho, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura
como âmbar dormido...

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo, só tu.
Sempre viva. Sempre sol. Sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados e
deixaram cair suaves sinais sem rumo. 

Teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva.
A noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho...

Pablo Neruda
Imagem: Mark Ryden

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Casas

Pedro mora na casa amarela da rua cinza de uma cidade muito grande. Júlia vive com a  cabeça nas nuvens, no último andar de um prédio que arranha o céu. Caio vive pra lá e pra cá: sua casa é onde seus brinquedos estão. Cris mora dentro do seu diário e lá escreve cartas que acaba não enviando pra João, que mora em outro país, numa casa que ela não conhece. Clara ainda está morando dentro da barriga da sua mãe. João sempre diz que sua casa é duas, a do pai e a da mãe. Às vezes, Tati se imagina morando lá longe, na casa-estrela de onde sua avó manda beijos brilhantes.
Texto: Silvana Tavano

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Estrada

Por que teus olhos já não dizem nada?
Parecem duas pedras imóveis 
E a  batida do teu coração não é como antes?
No pulsar arredio
Impassível da dura tarefa dos dias
Pobre rapaz
Pobre de mim
Doce futuro sem fim

Wandréa Marcinoni

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Sem título

E de todo o seu sofrimento sobraram o tempo passado, as roupas reviradas, a temperatura do vinho, a cor vermelha, o semblante cansado, a falta de paciência, o choro contido, as palavras que nunca fala. Hoje ela deu pra calar, consciente de que a falta de novidades não dá mais manchetes nos jornais. Calou porque queria falar. Ainda fala sem pensar. Ainda tem medo do escuro. O seu quarto é fechado. Suas jóias escondeu na pequena caixa no armário. As estantes estão empoeiradas e nos livros faltam  páginas que foram arrancadas. Resolveu e fez. Trancou, escondeu a chave e esqueceu aonde.

Wandréa Marcinoni