sábado, 28 de fevereiro de 2015

Ouvindo agora

Meu dia

O despertador insistia em tocar. Ela apertava a função soneca a cada 5 minutos como se ainda restasse alguma chance de dormir sem hora para acordar. Alguns raios de luz teimavam em entrar pelas brechas das cortinas e foi então que ela se deu conta:  é agora ou nunca! Levantou em um pulo, dobrou as roupas de cama, tirou o pijama hospitalar e enfiou na mochila vermelha inseparável. Juntou cada caquinho de si mesma, pegou suas tralhas e desceu a tempo de bater o ponto com algum atraso, O que no final das contas não significava nada. Foi pra casa e ao entrar soou o alarme dos sem café. Correu deseperada ao mercado mais próximo. Precisava de um filtro, não mais do que isso. Enquanto procurava sentiu o cheiro do pão quentinho saído do forno. Resolveu então esperar, afinal, já estava ali mesmo. Chegou em casa pela segunda vez. Já era a hora de levar o filho para a natação. Um café rápido e foi à luta. Água fria, tempo quente. Em casa agora pela terceira vez. Tomou um banho, almoçou e seguiu: pega kit, vai ao salão, ressonância, o laudo normal, a comida, a sobremesa, o vaso rosa, a vida. Retorno, ansiedade, desafio, a escola, o enfadonho perceber que a luta é grande e os desafios sem fim. O ir dormir, o choro, a birra, o curativo pras dores da alma. Não tem, não pára. Sobe na cadeira e grita. Mas grita bem alto que a vida é combate que aos fracos abate e aos bravos aos fortes só faz exaltar.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Benjamin Lacombe

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Onde não houver amor não te demores


Mariposas

De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa  

O Grande Desastre Aéreo de Ontem

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranquila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol

Texto: Jorge Lima
Imagem: Stanka Kordic

As palavras que não dizemos

João queria pedir desculpas. Teresa queria declarar o seu amor. Luíza, desaguar os anos de mágoa. Pedro queria pedir um abraço. Joana, perdão. Lúcio queria apenas licença para ser quem era. Paulo, aprovação. Camila, explicação. Helena queria dizer que não faria de novo. Não, outra vez não. Fabrício queria um sorriso. Ana, devolução. José queria dizer obrigado. Marília só queria que soubesse que havia perdoado. Foi, deu, ficou pra trás. Cecília queria dizer não. Augusto, sim. Frederico queria dizer adeus.
Mas João não disse. Nem Teresa. Nem Luíza. Pedro. Joana. Ou Paulo. Camila. Helena. Não disse o Fabrício. Nem a Ana. O José. Marília ou Cecília. O Augusto não disse. Frederico também não. Não disseram porque tiveram medo. Por causa da distância. Não disseram porque faltaram as palavras. Faltou a oportunidade, a força de vontade. Não disseram porque emudeceram, porque as línguas eram diferentes como diferentes eram os sinais. Não disseram porque não valeria à pena. Não faria a diferença. Porque não conseguiram. Porque deixaram para depois, e o depois nunca chegou.
São infinitas as razões e não razões pelas quais deixamos de dizer algo que precisávamos ter dito, gostaríamos de ter dito. Não apenas por falar. Para desatar nós e seguir adiante. É que o silêncio, às vezes, é menos assustador que a palavra. No silêncio, somos rei e senhor. Nosso domínio é soberano, porque só a nós diz respeito. Quebrar o silêncio é arcar com as consequências. É enfrentar. O silêncio não traz enfrentamento, e os riscos são poucos. Mas as alegrias também. Quantas pessoas passam a vida sem ter dito o que realmente queriam? Sem ter feito as pazes ou ter rompido o que deveria ser rompido? Sem dar sequência ou terminar o que deveria ser terminado? Um ponto final ou um ponto de partida. Não. As palavras não ditas são reticências.
A palavra não dita consome e esmaga. Dependendo daquilo que se quer dizer, o não dizer é um discurso calado, solitário e ininterrupto. É um nó que não desata. Um conjunto de letras e sílabas com o peso de todas as letras, todas as sílabas e todas as combinações possíveis do todos os alfabetos, porque é aquilo que não teve um fim. Ficou por ser.  A palavra não dita é a palavra que, presa, aprisiona. Entristece. Não são as palavras feias as mais doídas. As mais doídas são as palavras não ditas.
Se você tem algo por dizer, diga. Não deixe para depois, porque o depois pode não chegar.

Daqui: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/uma-so/as-palavras-mais-doidas-sao-as-nao-ditas/

I was afraid



Preocupação

É como uma nuvem que estaciona em cima da gente e encobre o pensamento em sombras, anunciando uma tempestade que nem sempre acontece.

Silvana Tavano

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O amor bate na aorta

"Daqui estou vendo o amor irritado, desapontado... 
Mas também vejo outras coisas: 
Vejo beijos que se beijam, 
Ouço mãos que se conversam 
e que viajam sem mapa. 
Vejo muitas outras coisas, 
que não ouso compreender..."
Carlos Drummond de Andrade