quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Do meu silêncio só eu sei

Casa
Porta
Duas
Lentes
Papéis
Sua preferência
Sua vida em 7 dias
Uma semana
4 semanas
1 mês
1 ano
Uma vida
Risquei um X aqui e ali
Pisquei e retruquei poucas palavras
Subi as escadas e esse sentimento não foi embora
Em casa mais um contorno
Não quero mais ter que falar
Minha boca calou
Meu coração não se encontra
Minha memória ficou na caixa sobre a mesa
Os papéis guardei na gaveta
Em 60 segundos luzes se acenderão e mostrarão o caminho
Dê 5 passos e estará lá
Só resta saber o que vai ser de mim quando eu acordar
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A porta

Se a paixão se aproximar, não deixe ela entrar. Não deixe ela passar da porta, não, nem morta! Paixão é visita que não vai embora, que aceita mais um café, que passa da copa para a sala de estar sem cerimônia, que fica pra assistir TV e filar o jantar. Paixão é visita que pede pouso, pijama emprestado, travesseiro afofado. Paixão é do tipo que não entende indireta e nem se afeta pelas mandingas do tipo vassoura-de-cabeça-pra-baixo-atrás-da-porta. A paixão fica, se aconhega, se sente em casa. Paixão é amiga espaçosa, que abre a geladeira, come a sobremesa direto do pirex, tira o sapato e tem sua própria escova de dentes guardada no banheiro. Uma vez dentro, a paixão insiste em não sair. A paixão te faz refém na sua própria casa: você tem todos aqueles compromissos e ela não te deixa sair, todos aqueles livros pra ler e ela fica tirando a sua atenção, todas as contas do mês para pagar e ela diz que não. Paixão, além de tudo, é bicho vaidoso, quer atenção, quer os olhos vidrados nela, não te deixa nem ver a novela nem relaxar no sofá. Então, se a paixão passar, melhor não deixar ela entrar. Ela vai ocupar seu tempo, seu espaço e depois seu coração. Você vai se apegar à paixão. Vai se apaixonar por ela. E quando você menos esperar, ele traz mala, cuia e papagaio, e de visita vira inquilina – aí, ai de você se pedir pra ela sair.
Então, se a paixão passar, melhor não deixar ela entrar.
Texto: Luana Azeredo

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A casa

Outro dia quando ela saía de casa, lembrou como era alguns anos atrás.
Lembrava das roupas na varanda.
Das roupas que caiam umas sobre as outras.
Das portas duplas compradas por acaso.
Lembrava das chaves trocadas.
Por um tempo foi tudo tão embaçado, tão visualmente imperfeito, tão difícil de entender.
Ela carregava o peso do mundo.
Não percebia o giro das coisas à sua volta.
Permaneceu assim meio dormente por quase um ano.
Quando acordou não queria ver.
Começou a andar de óculos escuros.
Escondia as mãos no elevador.
Mal saía de casa.
Trabalhava e na época o trabalho era terapia.
Era onde esquecia por vezes o gosto amargo.
Caminhou.
Não esqueceu de tentar.
Buscou como poucos a alegria de viver.
Tropeçou daqui e dali.
Entrou na sala.
Viu as portas e janelas fechadas.
Ouviu palavras de consolo.
Um dia, fechou o coração.
Nada há de entrar.
Há de ser feliz assim
Era engano.
Não esquecia.
Seu coração continuava vivo.
Pedia todo dia pra enchê-lo de amor.
Ela seguiu.
Procurou.
Encontrou.
Ela encontrou.
Texto: Wandréa Marcinoni



domingo, 13 de outubro de 2013

Deixa pra lá

Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar
Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.
Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.
De dia caio minh’alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.
Texto: Antonio Cicero
Imagem: Maísa Coutinho

O monopólio da tristeza

Se não é aquela que me invade na noite escura.
Talvez seja quem me acompanhe no dia claro.
Talvez seja quem deita em minha cama.
Ela é guardada comigo como tesouro.
Desvendo aos poucos com quem me abro.
Às vezes sou pega de surpresa com perguntas ou mesmo afirmações.
Eu sei o que é certo e verdadeiro.
Mesmo assim nego sistematicamente.
Ele me olha.
Ele me fala.
Ele me interpreta, mas não me salva.
Antes me afoga em águas salgadas e profundas.
Antes me esquece e me cobra.
Esse começo que já é fim, tem pedras e pontas e estalos e mares.
Não sei flutuar.
Apenas me escondo na expectativa que ele me esqueça.
Ou então que me aceite como uma erva daninha no meio das flores.
Ou que pode meus espinhos.
Ou que esqueça de acusar.
Ou que tome partido de mim.
Mas ele não há...
Ele não há...
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Brooke Shaden

sábado, 5 de outubro de 2013

Perguntas

Por que dói meu coração?
Por que não sou como os outros?
Por que não acordo-trabalho-descanso-me movo?
Por que não durmo?
Por que não saio?
Por que me prendo?
Por que não sou?
Por que deixei de ser?
Por que não me encaixo?
Seria tão fácil.
Seria mais.
Seria o nexo e sentido.
Seria aceita.
Por que não me movo?
Por que eu aceito?
Por que?
Por que ao meio dia?
Por que só meia hora?
Por que à meia noite?
Por que?
Pra sempre?
Assim...a peça...sem encaixe?
Por que?
Por que só?
Por que pra sempre?
Por que?