segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Mundo

A profecia dizia que passados 4 anos a terra estremeceria, os vulcões entrariam em erupção, os sinos tocariam   som estridente, a fala sumiria, qualquer apego materialista tomaria novo rumo, sentiríamos falta de ar, torceríamos por   luz, correríamos de encontro a uma encruzilhada, faríamos oferendas, rezaríamos terços, louvaríamos, teceríamos planos infindáveis, nos torturaríamos, fugiríamos, trabalharíamos, descansaríamos, seríamos, dominaríamos. A vida dizia que o sonho não basta, que  a vontade não é senhoria, que os tantos percalços são só consequências . Ninguém teimaria. Não levantaríamos a voz. Mas no fim seríamos donos de nossa própria desgraça e nos consolaríamos uns aos outros, como crianças que não se importam com a mesa mal posta, com a escrita mal feita, com a história e sua deturpação. Sonharíamos que não éramos nós mesmos e dormiríamos em berço esplêndido e daríamos vivas à liberdade e à nossa eterna capacidade de seguir em frente.
Texto: Wandréa Marcinoni

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Passamento

O ultrajante descaminho em que me encontro, é fruto da ausência de direito.
Não vou nem venho.
Não sou.
Não falo.
Me resumo ao silêncio sufocante de palavras guardadas por anos.
Náufrago, deserto, fadiga e inspirações.
Tenho um só ouvido.
Um só poço de memórias e mágoas.
Um só porto.
Um só.
Prisão sem grades.
Liberdade imposta.
Barco à deriva.
Mar revolto.
Caminho sem volta.
Escuro da noite.
Eu só comigo só.
Eu sem você.
Eu naquele sufoco de vida sem tempo e sem rumo.
Eu que corro e agito.
Eu na minha aflição de menina mais velha.
Eu com minhas marcas e maus presságios.
Eu sou o inverno.
Eu  calo e engulo.
Eu  e as dúvidas, anseios, pensamentos, ambiguidades, passamentos.
Pequena menina.
Menina sem rumo.
Menina mais velha.
Texto: Wandréa Marcinoni

O dia que passou


Essa sensação


Pensamentos

O domingo.
O sol.
A terra vermelha.
A estrada.
O passo.
A água.
A queda.
A vida.
A esperança.
A reação.
A fuga.
A culpa.
O choro.
O ombro.
A noite.
O sono.
O dia.
O começo do fim.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Um domingo


"Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.

Clarice Lispector