terça-feira, 25 de setembro de 2012

Da linguagem amorosa


POEMA DA NECESSIDADE




É preciso casar João,
É preciso suportar Antônio,
É preciso odiar Melquíades,
É preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
É preciso crer em Deus,
É preciso pagar as dívidas,
É preciso comprar um rádio,
É preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
É preciso estar sempre bêbado,
É preciso ler Baudelaire,
É preciso colher as flores
De que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
É preciso não assassiná-los,
É preciso ter mãos pálidas
E anunciar O FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 22 de setembro de 2012

Do que sou


Preciso acalmar urgentemente o meu pensamento.
Que não me cause mais transtornos.
Que pare de desobediências.
Pois que ando cheia dessas idéias desarrumadas e amontoadas umas sobre as outras.
O que verbalizo é distorcido.
Pois falo apenas o necessário e superficial.
Não sou do tipo que expõe aos quatro cantos suas verdades.
Não sou das mentiras.
Nunca fui.
Sou mais daquelas que têm vitrines nos olhos.
Daquelas que pulsam o peito.
Daquelas que tremem de emoção.
Sou do choro fácil.
Sou do riso ingênuo.
Sou da vida.
Sou da alma.
Sou da dor.
Sou até não poder ser.
Sou até não poder.
Sou até não.
Sou até.
Sou.
Texto: Wandréa Marcinoni

Da primavera

Eu sou a profunda incerteza, sou grande e pequena, sou intensa.

Sou Primavera inconstante e Verão ardente, como as saudades do que passa e marca, quase sem sentir.

Sou mais doce que salgada, sou dos chocolates, do sorvete napolitano e das balas sortidas, que surpreendem o paladar.

Sou a insegurança que consome meus atos.

Sou a gargalhada histérica que fere o ouvido e simultaneamente o pranto silencioso; o sofrer calado daqueles que espalham atestados de felicidade.

Sou a busca constante, sou o "mais" ambicioso, sou dos livros, sou do estudo, sou da música, sou da vaidade.

Sou orgulhosa, sou o julgamento precoce, sou medrosa...

Sou do dia e da noite, sou das festas, sou da dança, sou da embriaguez pela alegria que me consome. Sou da praia e da piscina, sou brasileira, sou do frio e do calor, sou de lua.

Sou crítica, sou insatisfeita, sou a persuasão e a literatura. Sou a luta, a intransigência, o caminho que tracei, o nome que fiz, o que pensei e divulguei.

Sou as vitórias que obtive, sou as cidades que conheci. Sou justa e sincera até na mentira.

Sou a memória da infância, a boneca com que brinquei, a tartaruga que criei, os pássaros que amei, os amigos que tive e até os que inventei. Sou a educação que obtive, sou da família.

Sou de amar. Sou roxo e lilás, mas as unhas, vermelhas. Sou dos olhos cor de mel, do cabelo amarelo, bem amarelo e comprido, bem comprido.

Sou dos sonhos, da ilusão, sou do príncipe encantado.

Sou autêntica, sou além do que você pensa ou espera.

Sou a imagem que fazem de mim, como posso não ser, basta acordar e querer mudar.

Sou o que quero. E gosto muito disso.
Texto: Karla Buarque com modificações
Imagem: Tirinha Quino

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Tudo bem por aí


Imagem: crisnaumovs

Ele



A vida seguindo por um fio ultrapassou as fronteiras do país vizinho. Cercada de armas, munições, bombas-relógio com data e hora marcada. Ela tem motivos pra pensar no sonho impossível. As marcas têm sangue. Tem memórias. Têm sinais. Não dê dois passos à frente que há risco de explosão dizia o aviso. As placas gritavam perigo com letras vermelhas e silêncio. As pedras machucavam seus pés, mas ela não ligou. Por menos já teria desistido. Por tempos pisou em brasa e teve queimaduras e marcas profundas. Veio alguém e tomou seus sonhos na mão e os esfregou, dilacerou, torceu, tingiu, tinta negra. Fagulhas, intervalos, capelas, orações sem perdão. Ajoelhou e implorou aos céus sem muita confiança. Um dia por correio ou coisa que o valha, alguém transformou esconderijo em coisa farta. Todos podiam gargalhar a desgraça alheia, então juntou os cacos e se fingiu de forte. Abriu a porta e vagou pelos caminhos de ontem. Ele na mesa, ele com flores, ele com o tom, ela sem nada, ela com olhos de maresia, ela com músicas da década passada , ela com o medo da mágoa, ela sem caminho, ela com seu fardo , ela só com ela, ela com seu mundo, ela...ela só com ela.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Anne Mei

domingo, 2 de setembro de 2012

Nas estrelas



O que há no céu?
Quando ele brinca e sorri...o que há no céu?
Quando ele fala da lua?
O que ele vê?
O que ele sente?
Quando canta e toca...o que ele sente?
Quando ele sorri?
Será que me ama?
Será que sabe o que eu sinto?
Quando ele brinca e voa?
Ele sente o perigo?
Quando eu o abraço...o que será que ele sente?
O que será que ele fala?
Ele sabe do amor?
Do amor que eu sinto?
Ele sabe de mim?


Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Eugenia Gapchinska