segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ele



A vida seguindo por um fio ultrapassou as fronteiras do país vizinho. Cercada de armas, munições, bombas-relógio com data e hora marcada. Ela tem motivos pra pensar no sonho impossível. As marcas têm sangue. Tem memórias. Têm sinais. Não dê dois passos à frente que há risco de explosão dizia o aviso. As placas gritavam perigo com letras vermelhas e silêncio. As pedras machucavam seus pés, mas ela não ligou. Por menos já teria desistido. Por tempos pisou em brasa e teve queimaduras e marcas profundas. Veio alguém e tomou seus sonhos na mão e os esfregou, dilacerou, torceu, tingiu, tinta negra. Fagulhas, intervalos, capelas, orações sem perdão. Ajoelhou e implorou aos céus sem muita confiança. Um dia por correio ou coisa que o valha, alguém transformou esconderijo em coisa farta. Todos podiam gargalhar a desgraça alheia, então juntou os cacos e se fingiu de forte. Abriu a porta e vagou pelos caminhos de ontem. Ele na mesa, ele com flores, ele com o tom, ela sem nada, ela com olhos de maresia, ela com músicas da década passada , ela com o medo da mágoa, ela sem caminho, ela com seu fardo , ela só com ela, ela com seu mundo, ela...ela só com ela.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Anne Mei

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