quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dedicatória do Autor (Na verdade Clarice Lispector)


Pois que dedico esta coisa aí ao antigo Schumann e sua doce Clara que são hoje ossos, ai de nós. Dedico-me à cor rubra muito escarlate como o meu sangue de homem em plena idade e portanto dedico-me a meu sangue. Dedico-me sobretudo aos gnomos, anões, sílfides e ninfas que me habitam a vida. Dedico-me à saudade de minha antiga pobreza, quando tudo era mais sóbrio e digno e eu nunca havia comido lagosta. Dedico-me à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que me amolece os ossos. A Stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo. À “Morte e Transfiguração”, em que Richard Strauss me revela um destino ? Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje a hoje, ao transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schöenberg, aos dodecafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos — a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presentes e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu, neste instante, explodir em : eu. (...)
Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever.
(...)
Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta eu espero que alguém no mundo me dê. Vós? É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. Amém para todos nós.

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