segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Janeiro




Quando entrei na sala , vi que a orquídea estava sobre a mesa de canto. Por sobre a mesa um tanto de presentes. Próximo à televisão, o cd que te dei ainda na embalagem plástica. Ao lado da porta estavam as malas como se você houvesse chegado de viagem. Ontem havia ouvido o som dos teclados. Não entendi direito. Trouxe os meus presentes. Era natal ou algo similar. Fazia calor. A janela estava aberta com vista pra praça. A praça estava fechada pra gente. Nós estávamos fechados pra vida. A vida se escondia por detrás do parapeito, o som dos passarinhos continuava igual, as luzes não existiam porque era dia. Eu sabia de tudo, mas não disse. Na verdade não entendia, era complicado. Peguei os livros na noite anterior. Guardei-os na caixa de remédios, no fundo do guarda roupas e tranquei-os com a chave azul. Ali eles faziam sentido. Quando à tarde fui te encontrar, depois de muito insistir, abri a caixa, peguei o livro de bolso com dedicatória e o livro branco sem dedicatória, corri até o quarto, imprimi panfletos e frases ao vento. Troquei a roupa branca e segui. Você pediu que eu te esperasse. Eu aceitei e não consegui falar sobre o combinado. Tomamos um cappuccino, você pagou a conta, me levou até o carro e depois de tudo nem olhou pra trás.
Conclui com o tempo que não se atinge essa essência se não se vive e com você isso é essencial.
Máscara, treino, atuação, méritos e glórias e alguém para uma breve análise. Alguém capaz de dizimar pobres instintos. Alguém capaz de contornar o Cabo Canaveral. Alguém capaz de falar de viagens, pobreza, desigualdades. Alguém para julgar que é. Esse é você com os olhos meus. Esse é o espanto daquele tempo. Essa é a clareza totalitária e minha. Essa sou eu depois de você.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Amanda Cass

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