terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Com miríades de olhos benevolentes


Nasci no dia 9 de Janeiro de 1908, às quatro horas da manhã, num quarto de móveis lacados a branco que dava para o Bulevar Raspail. Nas fotografias de família, tiradas no Verão seguinte, vêem-se senhoras ainda novas, de vestidos compridos e chapéus emplumados com penas de avestruz, e senhores de palhinhas e panamás, sorrindo para um bebé: são meus pais, meu avô, minhas tias, meus tios e sou eu. Meu pai tinha trinta anos, minha mãe vinte e um, eu era a primeira filha. (...)
Em casa, o menor incidente era alvo de vastos comentários; ouviam de bom grado as minhas histórias, repetiam as minhas graças. Avós, tios, tias, primos, uma família abundante, garantiam a minha importância. Além disso, todo um povo sobrenatural se inclinava para mim com solicitude. Logo que soube andar, a mamã levou-me à igreja; mostrou-me, feitos de cera, de gesso, pintados nas paredes, retratos do Menino Jesus, de Deus, da Virgem, dos anjos, um dos quais, como Louise, se achava especialmente ao meu serviço. O meu céu estrelava-se com miríades de olhos benevolentes. (...)
Protegida, mimada, divertida pela incessante novidade das coisas, era uma menina alegre. No entanto, havia alguma coisa que não batia certo, pois tinha ataques de fúria, atirava-me para o chão, roxa e com convulsões. (...) Berrava tanto e durante tanto tempo que várias vezes no Luxemburgo me tomavam por uma criança mártir. «Pobre pequena», disse-me uma vez uma senhora oferecendo-me um rebuçado. Agradeci-lhe com um pontapé. Este episódio fez rumor; uma tia obesa e com bigode, que escrevia, contou-o na Poupée Modèle. Eu compartilhava da admiração que inspirava a meus pais o papel impresso: através da história que me leu Louise senti-me uma personagem; pouco a pouco, no entanto, comecei a sentir-me envergonhada. «A pobre da Louise chorava às vezes amargamente, lastimando as suas ovelhas», escrevia a minha tia. Louise nunca chorava; não possuía ovelhas e gostava de mim: e como era possível comparar uma menina a umas ovelhas? Suspeitei a partir desse dia que a literatura tem uma relação muito incerta com a verdade.

in Memórias de Uma Menina Bem-Comportada, de Simone de Beauvoir

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