domingo, 1 de novembro de 2009

Republicando poiesis


Coração em chamas

Julgava-se tão desajeitada que nunca se atreveu a ter um namorado. Além do mais era tímida. O máximo de audácia a que chegou foi escrever para uma revista que mantinha um consultório sentimental. Declarou-se em disponibilidade para um relacionamento amoroso e assinou a declaração com um revelador "Coração em Chamas". Pensou melhor e mudou para "Coração Solitário".Pensou melhor ainda e nem mandou a mensagem! Na semana seguinte, comprou a tal revista e descobriu que havia um outro coração em chamas" pedindo socorro. Era um homem que se dizia cansado de solidão e estava louco para amar alguém. Achou coincidência demais e decidiu procurar o coração em chamas com as chamas do seu próprio coração. Seria um respeitável incêndio. Marcaram um encontro num shopping de Santo André, perto da praça de alimentação. Ela ia de blusa amarela, ele de jeans e camisa xadrez.Foi azar deles. Na praça de alimentação havia umas vinte moças com camisa amarela. E todos os jovens do pedaço pareciam haver combinado: estavam todos de jeans e camisa xadrez. Atordoada ela olhou para aquela confusão. Para falar a verdade, ninguém ali parecia ter coração em chamas. Só o dela, realmente, ficara em chamas com a perspectiva de um encontro, de um destino. Voltou para casa. Tomou coragem sim, mandou a mensagem pedindo a outra metade do coração em chamas.

Carlos Heitor Cony

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