sexta-feira, 25 de março de 2016

Oswaldo Montenegro e Zeca Baleiro cantam "Léo e Bia"

O que há em mim

O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos

quinta-feira, 24 de março de 2016

Ao menos



Todos os cogumelos são comestíveis. Alguns, apenas 1 vez.

Ser amado é não saber de muitas coisas

Os filhos não sabem, não imaginam, de quantas mãos deslizando pelos seus cabelos enquanto dormem, à noite, eles são feitos; não sabem com quantos olhares a distância, com quantos olhares de perto, com quantos olhos maravilhosamente encantados e admirados, seus dias de criança são construídos; não contam os mililitros, rosados ou não, com os quais são preenchidos para as muitas curas; não conhecem as pomadas que são passadas por cima de suas dores; não lembram a quantidade de mamadas, translactações, fórmulas e mamadeiras espalhadas por longos dias; não recordam as roupas que vão se apequenando e indo morar em outras paragens e os sapatos sempre ficando apertados; não atentam para o relógio e a correria para chegar a tempo, para não atrasar; não conhecem as tarefas “imprensadas” umas nas outras para dar tempo de vê-los, na hora que tem que ser; não viram os carros parados na porta da escola, com gente sentada há mais de dez minutos, esperando tocar o sinal para pegá-los; não percebem os desejos de felicidade dentro dos presentes nem dentro dos dias; não percebem de quanta culpa, de quantas vontades, de quanto amor e quanta alegria são feitos cada milímetro de pai e mãe. E isso é bom. Ser amado é não saber de muitas coisas.
Autor: Rafiza Luziani

segunda-feira, 21 de março de 2016

Tiê - Isqueiro Azul (Clipe Oficial)

Tiê "A Noite" - Clipe Oficial

De trás pra frente

Imagem: Ricardo Siri LIniers

A espera

O domingo amanheceu preguiçoso. A luz do dia entrou devagar pela fresta da janela. Ela se virou de lado tentando evitar o inevitável. A vida a chamava.  Levantou-se, olhou-se no espelho e pensou que quando acorda não se reconhece em si mesma. O barulho dos carros lá fora mostravam que pros outros também é assim. Saiu, mas por conta das dores voltou em menos de 1 hora. Tomou um café bem quente evitando aqueles pãezinhos que lhe confeririam calorias adicionais. Pensou em muitas coisas. Assistiu tv com um certo prazer de quem há 2 semanas não parava em casa. Depois viu as notícias que trouxeram pra ela um pouco de angústia. No desaviso de atitudes, tem muitas vezes que ela se decepciona, Penso que mais por conta do inesperado. Ou será que por esperar demais? Com seus botões pensou que sua imagem para os outros é sempre outra. Sempre a imagem da pessoa que ela não é. Não que ela não possa com suas dificuldades se adaptar aos gostos alheios e fazer cara de paisagem, mas enfim, ela nunca será assim. Ela é cheia de defeitos, cheia de qualidades, cheia de controvérsias e sentimentos agudos. Sentimentos daqueles que por vezes só se representam num grito. É um estupor de dúvidas, um celeiro de idéias, um pacote meio amassado pelo tempo, um papel de pão escrito à caneta, ela é um adeus, com certeza! Mas, enfim, muitas vezes ela gostaria de ser para sempre.
Texto: Wandréa Marcinoni

Leituras

" Morte é a ausência definitiva. Tomei consciência desse fato aos quatro anos de idade, dois meses depois de ter ficado órfão. Estava sentado à mesa do café-da-manhã, encolhido por causa do frio; minha avó espanhola, de vestido preto, vigiava o leite no fogão, de costas para mim." 

O jardineiro e o Girassol

O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.
Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião.
O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. "Você o tratava mal, agora está arrependido?" "Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava".
Texto: Carlos Drummond de Andrade
Imagem: Fábio Oliveira

Eu quero ser mulher de novo

Eu quero ser mulher de novo. Estou cansada de virar homem tantas vezes ao dia, tendo que resolver a vida e o mundo.
Tenho que trabalhar, pagar contas, impostos, saber tudo sobre contabilidade, escrever, recitar Vinicius, ter uma bunda dura, um cabelo macio, quinhentos e cinqüenta e cinco cheiros gostosos pelo corpo, pés e mãos bem feitos, saber o que está passando no cinema, ler de Sartre a Vogue, ajudar a família e amigos, colocar os quadros novos na parede, responder e-mails e estar Linda e com a pele fresca para quando aquela pessoa que você joga charme há meses te chamar pra sair(...)

(...)Eu, por exemplo, trabalho, tenho minha Casa, sou forte por acaso, mas tenho meu lado mulherzinha que não me deixa.
Sou emotiva, sensível, choro à toa, rodo a baiana mas espero o telefone tocar, tenho meus nhem nhem nhens e estou cansada.

Texto: Martha Medeiros
Imagem: Benjamin Lacombe