terça-feira, 31 de março de 2015

Bem vindo à Holanda

Ter um bebê é como planejar uma fabulosa viagem de férias – para a ITÁLIA! Você compra montes de guias e faz planos maravilhosos! O Coliseu. O Davi de Michelângelo. As gôndolas em Veneza. Você pode até aprender algumas frases em italiano. É tudo muito excitante.
Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia! Você arruma suas malas e embarca. Algumas horas depois você aterrissa. O comissário de bordo chega e diz:
- BEM VINDO À HOLANDA!
- Holanda!?! – Diz você. – O que quer dizer com Holanda!?!? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu sonhei em conhecer a Itália!
Mas houve uma mudança de plano vôo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar.
A coisa mais importante é que eles não te levaram a um lugar horrível, desagradável, cheio de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente.
Logo, você deve sair e comprar novos guias. Deve aprender uma nova linguagem. E você irá encontrar todo um novo grupo de pessoas que nunca encontrou antes.
É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor, começar a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrants e Van Goghs.
Mas, todos que você conhece estão ocupados indo e vindo da Itália, estão sempre comentando sobre o tempo maravilhoso que passaram lá. E por toda sua vida você dirá: – Sim, era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu havia planejado!.
E a dor que isso causa nunca, nunca irá embora. Porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.
Porém, se você passar a sua vida toda remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais sobre a Holanda.
Texto: Emily Perl Knisley, 1987

Noite

Um dia antes de dormir, parei pra pensar na saudade. Saudade daquele tempo de leveza sem final. Não se tratava de exagerar a felicidade, mas do cheiro, gosto e sensações que os momentos têm. Por vezes tentava dormir, mas a saudade não deixava. Misturava na minha cabeça passado, presente e futuro num fluxo de idéias tão grande que se tornou impossível. Às vezes ao deitar deixo a janela aberta e escuto a noite. Escuto carros estacionando, escuto o morador do andar de cima que ronca sem parar, escuto o silêncio. Meu coração palpita quando escuto passos leves e um discreto bater na porta. Abro e o olhar assustado do imprevisível me aguarda. Me considero uma lutadora. Alguém que foi vítima e refém. Alguém que dá passos lentos, mas que luta em silêncio, engole a dor, chora por dentro, se amedronta. Hoje pela manhã, quando a luz acendeu, ficou escuro pra mim. 

" Talvez eu siga regras e valores aos quais  não abdico. Privacidade corresponde a proteger quem amamos de nosso orgulho e soberba. Escolhi viver com ela e, apesar de afastado por alguns dias, continuo vivendo com ela. Longe ou perto, não mudo em nada da minha mentalidade...

Há sempre uma ponta de melancolia em minhas andanças sozinho, uma brisa fria a sussurrar em meus ouvidos o quanto ela gostaria daquele espaço.

Eu me torno um olheiro sentimental... conheço paisagens e locais só para depois mostrar para ela. Minha função é recrutar alegria para nós - e descobrir o que provocará seu arrebatamento. Transformo a visita solitária em convite a dois: "Passei por um lugar que vai adorar, pensei na gente".

E o mais bonito é que ela faz o mesmo, sem jamais combinarmos a troca de gentilezas."

Texto: Wandréa Marcinoni
Entre aspas: Fabrício Carpinejar
Imagem: Benjamin Lacombe