terça-feira, 25 de março de 2014

Sombras

"Quanto mais ando a procura de gente


mais me encontro sozinho no vago...

e eu nem sabia mais o montante que queria,

nem aonde eu extenso ia...

mas talvez o que sentia,

solidão.”

Guimarães Rosa

Houve um tempo em que as lembranças cabiam no pequeno espaço lá fora. Coisas amontoadas por sobre as outras, roupas amassadas, o sol, o dia e a noite, os olhares, sorrisos e dor. Tudo misturado, menos ela. Catava tudo e amontoava. Preenchia o vazio do peito com a crença de que sairia dali. Às vezes de noite fazia sol. Às vezes o zumbido a fazia acordar e ela tinha medo. Medo do sonho sem ser sonho. Medo da realidade e suas armadilhas. Medo de si e dos outros. medo dos olhares no escuro. Medo da noite, do  dia e de si. Medo, apenas ele.

Texto: Wandréa Marcinoni
Imegem: Nicoletta Ceccoli              

quarta-feira, 19 de março de 2014

Eu

A culpa minha, maior, é meu costume de curiosidade
de coração.

Isso de estimar os outros, muito ligeiro,
defeito esse que me entorpece


Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Arquivo pessoal

A volta

Agora ela deu de me dizer coisas.
De me lançar olhares por entre as frestas da janela
Hoje o sol acendeu pra mim
Me fiz de cega e chorei
Guardei todos os meus pertences em pequenas malas e me desfiz do que era sonho
Não murmurei
Não guardei pra mim
Fugi
Mas só em pensamento
Esse mesmo pensamento que me leva pra lá e pra cá
O mesmo que me faz querer desistir bem agora
Bem agora que consegui
Me esqueci de mim de novo
Passei a viver como o outro
Calcei meus sapatos e segui
Estava cansada pra pensar
Deixei pra lá
Só não sei até quando...

Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal

sábado, 8 de março de 2014

O que chamam de lar

6 lances de escada me separam do que eu fui.
Todo dia, várias vezes.
Um sobe e desce.
Um vem e vai.
Aqui da janela o céu é mais bonito.
Aqui  é fato que  os passarinhos me acordam  de manhã
Aqui crianças pulam em poças d'água.
Aqui tem sorriso de laranja.
Aqui são quatro ou cinco passos e se pode estar em qualquer lugar.
Aqui não conto mais  as horas.
Aqui é meu lugar.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Arquivo pessoal



Alegre era viver

"O certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundezas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma"
Texto: Guimarães Rosa
Imagem: Maísa Coutinho