quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ah...o meu allstar vermelho


Sabe aquele meu allstar vermelho que ficou na tua casa? Eu queria ele de volta. Não que eu ache que tu não vai devolvê-lo, mas é que, sabe, eu não costumo comprar muitos calçados, eu só tinha dois pares de tênis, e como o allstar vermelho está retido na tua casa, agora só tenho um, e pode chover. E tem outra: tu sabe que eu gosto daquele calçado, e eu ando pensando que eu deveria gostar mais de mim do que tenho gostado ultimamente, então achei que reaver o meu allstar vermelho podia ser um começo. E eu tenho andado tanto por aí mas parece que estou sempre indo para o lugar errado ou para o mesmo lugar ou então procurando algo que eu nem sei o que é. Talvez com meu allstar vermelho eu encontre um rumo ou ao menos meu caminho fique menos sem graça, porque às vezes mesmo quando a gente não sabe direito para onde está indo pode haver uma surpresa no caminho e esta surpresa pode ser boa mas não é o que tem acontecido. Mas para a surpresa ser boa a gente tem pelo menos que estar aberta a ela e para isso é preciso estar gostando de si mesmo. Quem sabe com meu velho allstar vermelho... Pensei que de repente tu pudesse me convidar pra ir à tua casa buscar meu allstar vermelho. Mas é claro que me vendo depois de tanto tempo tu me convidaria para entrar um pouquinho e eu titubearia um pouquinho mas aceitaria. E tu iria me oferecer uma cerveja e a gente ia conversar tanto e ia entender aquelas coisas do outro que ninguém entende. só a gente. Então a gente ia rir tanto e ia ser tão bom que eu iria embora tão embriagado, não só do álcool, que esqueceria do meu allstar. Daí eu iria te telefonar e antes de eu falar qualquer coisa tu diria já sei, esqueceu teu tênis aqui, pode voltar qualquer dia menos tal dia porque eu tenho uma reunião lá na ONG, quem sabe sábado, daí eu preparo uma janta para te esperar. E até sábado chegar eu não iria fazer nada direito, só esperando o grande dia e planejando o que te falar, mesmo sabendo que não adiantaria nada porque na hora eu nunca sei o que falar e acabo falando alguma bobagem ou então ficando quieto demais. Até que chegaria sábado e eu iria chegar cedo demais na tua casa e não entraria logo, ficaria andando pelo teu bairro até chegar a hora. E o jantar seria ótimo, e tantas bebidas tantas conversas tantas risadas que ficaria muito tarde. E tu diria que eu não precisava gastar em táxi, que passasse a noite na tua casa, assim ainda poderíamos assistir a um filme que tu alugou. Então tu faria para mim uma cama no chão ao lado da tua só que essa cama improvisada amanheceria intacta e nós apertados na tua cama de solteiro acordaríamos tão tarde e tão felizes que eu de novo esqueceria meu allstar vermelho, mas também, nem teria mais tanta urgência porque eu já estaria de novo gostando tanto de mim e também já não precisaria andar por aí sem rumo porque logo voltaria para junto de ti e me encontraria em teus braços como está perdido meu allstar vermelho na gaveta,entre os teus sapatos.
Texto: Wagner Machado
Imagem: Vilmar Madruga

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