terça-feira, 30 de novembro de 2010

Minha casa é meu reino ou memórias de narizinho


Minha primeira casa...da qual confesso não tenho lembrança alguma...ficava no bairro da COHAB. Foi a primeira aquisição do meu pai na luta diária que foi sua vida. Dela só sei que era quente demais e abrigava meus pais, eu e meu irmão. Com o passar dos anos e o crescimento em progressão aritmética da família, mudamos para a casa da Rua das flores...que aos meus olhos parecia grande. Havia um pequeno quintal...separado das casas vizinhas por uma cerca com madeira e arames...havia alguns tijolos...onde às vezes se escondiam alguns animais peçonhentos...havia um rio que passava atrás da casa...havia água limpa. É bem como me lembro. De lá tenho as primeiras lembranças da minha infância...quando eu tinha em torno dos quatro anos( se bem recordo ). Sempre fomos crianças de pé no chão, literalmente falando. As brincadeiras com meus irmãos eram sempre sem muitos brinquedos, mas com muita imaginação. Às vezes a casa e seu terreno eram o corpo humano...que visitávamos parte por parte...uma hora o sitema digestivo...outra o respiratório...e então...o circulatório. Às vezes em algumas pausas, abríamos uma garrafa de vidro do por lá famoso guaraná Jesus( o sonho cor-de-rosa )...e bebíamos a dizer que era sangue...como só a concepção infantil pode permitir. Lembro também de forma marcante o episódio em que criávamos um pintinho amarelinho...e o coitado despercebido passou por trás da porta e foi...digamos...amassado( é...esse momento é marcado por cenas fortes)...de forma que um pequenino filete do seu sistema entérico se pôs para fora. É bem verdade que dalí já vi alguma habilidade minha para a área de procedimentos médicos, posto que me coloquei a curá-lo reduzindo o pequeno filete à região intra-abdominal...Na casa da Rua das flores às vezes chovia...e é bem verdade isso se fazia também em seu interior...e nos víamos a colocar panelas em baixo de cada goteira...e eu mesmo criança via certa poesia em cada gota daquela que caía...pois era tempo de brincar...e de ver a vida colorida. Minha terceira casa e aquela em que passei a maior parte da minha vida( ainda infantil)...me pareceu um palácio...pois era grande...nova...e era a recompensa para os meus pais da luta diária. Uma das primeiras lembranças que tenho é de uma televisão em preto e branco...em um dos cômodos da casa onde passava o jornal nacional...e eu olhava as notícias não com os olhos de hoje...mas talvez sem tanta temeridade dos dias de violência. Nas redondezas havia inicialmente apenas 2 casas principais e um sítio bem em frente...à sua volta continuamos a viver nossas aventuras...subir em árvores...andar em cima dos muros...sair de bicicleta com uma pequena mochila nas costas...e um pão estilo "bisnaguinha" com queijo parmesão ralado como recheio( sim, isso era a fonte de energia para nós )...de tudo concluo que a infância é uma fase preciosa...é parte constituinte da nossa vida...até a eternidade. Escrevo isso por que deu saudade...e por que aqui dentro do peito continuo a estar lá...

Wandréa Marcinoni
Imagem: Adolie Day

2 comentários:

  1. Casa da polegarina?!!!!
    Saudades de tu e lamentos pelos desencontros virtuais :(
    Quase fiquei presa na minha velha infância ao ler tão verdadeiro texto cheio de imagens!!!
    bjs

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  2. lindo demais wwanwan,escreve com muita propriedade!adoro!

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