sexta-feira, 27 de maio de 2016

Brasília

Era dia 02 de março de 1998. Dia em que cheguei à Brasília. Trouxe na mala saudade e uma sensação enorme que não tinha nome. Olhava pra tudo e não me enxergava. Quando passei a cogitar essa possibilidade o mundo me parecia enorme, tipo um mar sem fim só que sem mar. O céu nublado e a chuva fininha eram a exata expressão da melancolia. Era tempo marcado e na minha cabeça a constante certeza de um rápido retorno. As lágrimas vinham e todas as vezes eu pensava: "vai passar". Foram infindáveis telefonemas, dias frios, caminhadas. Hoje não tenho como agradecer aos meus tios Celi, Carlos e minha saudosa tia Neó. Me encheram de cuidados e foram meu porto seguro. Tenho saudade da comida quentinha e do cuidar despretensioso. Ela sempre me lembrava minha mãe. O começo no hospital, os aprendizados, os novos amigos, a independência, o fazer por mim mesma. Foi bom nascer de novo por aqui também. Aos poucos Brasília foi ficando a minha cara. Eu já me via refletida, já gostava de andar pela grande comercial e gastar meus parcos trocados de médica aprendiz, já tinha uma cama e uma pequena estante que apoiava minhas bugigangas decorativas. Hoje são 18 anos, hoje meus filhos são daqui e nessa estranha terra de barro vermelho, de ipês de tanta beleza  que nos fazem parar no meio do trânsito para fotografar, de secura infindável, de gírias engraçadas, de identidade ainda em construção, eu com certeza tive os dias mais felizes da minha vida.

Texto: Wandréa Marcinoni


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