quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fuga n. 1


Ainda que eu continue naquele passo arrastado, lembrei que hoje completam-se dois anos e seis meses após aquela noite. Chamada ao centro do teatro armado fui avisada que nenhuma atitude mudaria o curso do rio. Cristal quebrado com uma couraça frágil aceitei meu fardo já de muitos anos. Se eu fumasse, acenderia e tragaria por alguns minutos um cigarro com sabor. Mas eu era só eu, com vícios pouco caracterizados, com atitudes amordaçadas pela dor, com o medo do futuro e querendo proteger a minha cria. Vinte e sete noites se passaram num caminho entre o entardecer e a penumbra. Vinte sete dias com o sono interrompido, vinte sete dias marcados, com lágrimas que caíam independente de mim, mas que tiveram fim, depois secaram. Entre os telefonemas e e-mails uma decisão que era só minha. Muitas vozes em meu ouvido sussurravam atitudes que eu era incapaz de atender. Vinte em vinte, em sete, em mim, em nós. Sobraram nós três. Os três em que uma família se fez.
Texto: Wandréa Marcinoni
Imagem: Alberto Seveso

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