terça-feira, 17 de abril de 2012

A carta




Meu querido, não esqueça de guardar os sapatos, e quando assim o fizer, aqueça seus pés com as meias que eu te dei.
Os poucos centavos, guardei em potes de barro no armário da cozinha.
Faça bom uso das muitas moedas.
O que deixei serve pelo menos para um noite regada a bebida
Uma noite daquelas nas quais você lembra em meio à ressaca dos atos mal conduzidos e depois pensa: " o que a bebida não faz?".
Deixo também as cartas que me deste, as frases mal escritas, o meu jogo da memória e algumas fitas gravadas com músicas das antigas.
Te dou uma dica: se ainda tens o velho aparelho de som, põe uma delas para que possas ouvir. O que gravei vai do popular ao erudito, embora saiba que isso pra você pouco importa.
É que nesses anos me conheço mais do que em outros tempos. Sou fruto sagrado dessas marcas e elas ficaram em mim para sempre.
O pouco que tinha e que realmente considero de valor vou levar pra nova vida. De baixo, do início, do nada, estou recriando uma nova forma de viver sem você.
Texto: Wandréa Marcinoni
Fragmentos dos contos da carochinha
Imagem: Arquivo pessoal

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