quarta-feira, 25 de maio de 2011

Devaneio em noite alta


Ela estava certa do que queria. Já havia conversado com ele por muito tempo. No começo...havia uma intensidade sem fim...juras de amor...sentimentos à flor da pele...uma (i)real intenção de concretizar palavras em ações. Ela duvidosa da sua capacidade de amar, tentou ter cautela, mas foi em vão. Quando viu...era pouco o tempo pra tanto sentimento. Ele como um bicho acuado passou a pensar na desculpa...como se do algodão doce houvesse surgido o gosto amargo. Já não agradava-se daquela intenção. Fugiam-lhe as forças fazer de outra maneira. Ele tem raciocínio rápido e segurança. Ela anda a bailar por cima das nuvens. Ele é decidido e racional. Ela só sabe que o amar não é pra qualquer um. Ele colocou as cartas na mesa como quem lê tarô. Ela, na sua inocência achou que tiraria as cartas certas. Ele...ela não sabe porque, tratou-a com o receio de quem se aflige pelo contágio de algo pernicioso. Tratou-a com o nada...o nada infindo que talvez não mereçam os maiores pecadores. Ela...devagar é bem verdade...foi se moldando à situação. Começou a ouvir as canções que ouvia antes...e ver as imagens que vira eternamente. Bebeu a água no mesmo copo...comeu da mesma comida...não chorou. Mas ela acha que é porque as lágrimas já secaram. Há ainda o brilho...há ainda os flashs...há ainda a memória...mas nada é mais certo do que aquilo que tem que ser. Ela prefere que ele o diga. Ela irá fugir, pois quer ser responsável pelo destino...não ousará esperar pela sentença tão evidente...vai buscar se abrigar à sombra...em local ventilado. Não haverá ruído à sua volta...nem um sopro de ternura. Não espera mais...convenceu-se enfim que não se acredita no impalpável. Carregará pra sempre em si a memória, o sentido, o pulsar e tudo aquilo que rime ou não com qualquer coisa que seja dita. É de plástico a sensação? não se degradará com o passar dos anos? Ela provoca arrepios? Ela é feita de argila? Ela provoca compaixão? Ela ...somente ela sabe...que a vida é água, fogo, paixão, tempestade, é terra...ela não sabe o que é...ela não quer nem saber. Ela quer ir ao parque...quer tira os sapatos, quer pisar na grama verde, quer olhar pro céu, quer entrar na água, quer lavar a alma, quer ser grande, quer ser inteira...quer ser como o poeta que diz: "Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"

Texto: Wandréa Marcinoni
Poema: Ricardo Reis
Imagem: Masha Sartari

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