terça-feira, 29 de março de 2011

Fragmentos de um discurso amoroso


"1. Aquilo que repercute em mim, é o que aprendo com meu corpo: alguma coisa fina e aguda acorda bruscamente este corpo que, nesse intervalo de tempo, estava adormecido no conhecimento racional de uma situação geral: a palavra, a imagem, o pensamento agem como um chicote. Mas meu corpo interior começa a vibrar como se sacudido por trompetes que se respondem e se sobrepõem: a incitação provoca um rastro, o rastro se espalha e tudo fica (mais ou menos rapidamente) arrasado. No imaginário amoroso, nada distingue a provocação mais fútil de um fato realmente conseqüente; o tempo é sacudido para a frente (me sobem à cabeça predições catastróficas) e para trás (me lembro atemorizado dos 'precedentes'): a partir de um nada, todo um discurso da lembrança e da morte se eleva e toma conta de mim: é o reino da memória, arma de repercussão - do 'ressentimento'.

2. Quando as frases lhe faltavam, Flaubert se jogava no sofá: ficava em 'vinha-d'olhos'. Se a coisa repercute com muita força, ela provoca uma tal confusão no meu corpo que sou obrigado a parar tudo o que estou fazendo; me deito na cama, e deixo passar a 'tempestade interior' sem lutar; ao contrário do monge zen, que se esvazia de imagens, deixo que elas me encham, sinto seu amargor até o fim."

Texto: Roland Barthes
IMagem: Nicoletta Ceccoli

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