sábado, 22 de fevereiro de 2014

Leitura


Distâncias

“O médico perguntou:
— O que sentes?
E eu respondi:
— Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias.”
Texto: Denison Mendes

Cansaço



O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 
A sutileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço.
Texto: Álvaro de Campos

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ontem

Meus sonhos consistiam em casa de quatro paredes, janela e porta.
Paredes brancas com detalhes azuis.
Flores coloridas na pequena varanda.
Café da manhã, almoço e jantar.
As texturas de tudo fugiam ao tato.
Preferia a sensação do desejar.
A juventude tem o dom da despreocupação.
O coração é mais manso que em outras épocas.
Poder dormir-acordar-dormir-sonhar-rever.
Acorda menina. Vem que a vida te chama.
Sente que não é bem assim.
Esquece teus planos e vem.
Destrói teus castelos.
Desce do pedestal.
Esquece a princesa.
Pisa na lama.
Caminha.
Olha pro Sol.
Vem.
Sou eu quem te chama.
Embora não saibas o riso à tua volta é falho conceito.
Não choram, não sangram.
Se metem a juiz dos teus dias de agora.
Pobre menina que não cresceu.
Ainda se empolga com poesia.
Ainda se sente como quem não pertence a mundo nenhum.
A ausência de fala.
A morte em si mesma.
O desencontro de ser.
Até quando?
Até quando...
Texto:
Wandréa Marcinoni
Em: noite estrelada
Em: dia de sol
Imagem: Max Moura Wolosker